Um sentido de Beleza

A vida fala-nos através dos acontecimentos quotidianos – as coincidências, os acasos, os imprevistos, os acidentes, as situações que se repetem.
Paul Auster chama-lhe “a poesia da vida”, Kundera fala de um sentido de beleza, da vida composta como uma partitura musical. Paulo Coelho, na sua obra “O Alquimista”, chamava-nos a atenção para os Sinais.
Mas podemos , embrenhados como estamos nos afazeres dos nossos dias, prestar atenção a algo mais que não seja às coisas concretas e imediatas?
Com que frequência nos deixamos surpreender pela poesia da vida, por esses acontecimentos que, de forma improvável, rimam entre si?
Podemos receber , de alguma maneira, esses oráculos quotidianos? Podemos parar e questionar-nos? Com que atitude respondemos a essas “chamadas de atenção” que a vida usa para se comunicar connosco?

Parar para ouvir a vida, para me questionar, para decidir, para largar, para criar, pode conduzir a mudanças profundas nas estruturas do que construí até agora. E uma mudança, mesmo quando desejada, implica entrar num processo que pode apresentar muitos desafios.

Mas a mudança é inevitável e mais vale mergulhar no processo que ela abre. E aproveitar a oportunidade para retomar um sentido de conexão comigo próprio.
Um processo de transformação pessoal, um processo de mudança – independentemente das suas dimensões – implica uma desconstrução e uma re construção. São ambos atos criativos mas preciso comprometer-me com eles, como um artista se compromete com a sua obra. E é aqui que há que fazer silêncio, calar o ruído externo. Sair do movimento incessante do mundo exterior e reencontrar-me comigo, a sós.

É nesse lugar interno, de escuta e conexão, que surgem as questões e os desejos. É aí que nasce o impulso para desconstruir o que já não me serve. E é aí que posso perceber com claridade as formas e contornos daquilo que é o meu Desejo.

 

“ A nossa vida quotidiana está sempre a ser bombardeada pelos acasos, mais exatamente por encontros fortuitos entre as pessoas e os acontecimentos, ou seja, por aquilo a que costuma chamar-se coincidências. (…)
Porque a vida humana também é assim que é composta.
É composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido de beleza, transpõe o acontecimento fortuito (…) e faz dele um tema, que em seguida, inscreverá na partitura da sua vida. Como o compositor faz com os temas de uma sonata, está sempre a voltar a ele, a repeti-lo, a modificá-lo, a desenvolvê-lo, a transpo-lo. (…)
Mesmo nos momentos de mais profunda desordem, é segundo as leis da beleza que, secretamente, o homem vai compondo a sua vida.
Não há, portanto, razão nenhuma para censurar aos romances o seu fascínio pelos misteriosos cruzamentos dos acasos (…), mas há boas razões para censurar o homem por ser cego a esses acasos na sua vida quotidiana e assim privar a vida da sua dimensão de beleza.” Milan Kundera

Deixe um comentário

Información básica sobre protección de datos Ver más

  • Responsable Vera Sofia Palma Paulino .
  • Finalidad Moderar los comentarios. Responder las consultas.
  • Legitimación Tu consentimiento.
  • Destinatarios Ptisp.
  • Derechos Acceder, rectificar y suprimir los datos.
  • Información Adicional Puedes consultar la información detallada en la Política de Privacidad.