O Oráculo – Integridade e Rebeldia

O mundo vai sempre tentar domar-nos, civilizar-nos e moldar-nos. “O que é que se espera de nós? O que é que a nossa família, a nossa cultura, a nossa sociedade espera de nós?” Será que vivemos toda uma vida com essa questão como guia inconsciente das nossas ações e decisões?
Somos rebeldes, mas continuamos a obedecer. Denunciamos, criticamos, contestamos. Mas continuamos a pactuar com as mesmas coisas contra as quais nos afirmamos. Porque a verdadeira rebeldia não é afirmar-nos contra. Contra seja o que for que nos cause a mais profunda indignação e resistência. A verdadeira rebeldia é afirmar-nos a favor: dos nossos valores, dos nossos sentimentos, das nossas necessidades autênticas, do nosso Desejo de alma.
Mas isso requer coragem. Primeiro requer a coragem de abdicar da necessidade de aprovação externa. Requer a coragem de não precisarmos agradar aos demais. Requer a coragem de dizer “Não” àquilo que nos lastima, deprime, enferma. E, principalmente, requer a coragem de deixarmos de nos guiar pelas tendências externas – e demandas, e pressões, e exigências…
Ou seja, requer a coragem de não conferir o nosso poder ao mundo, mas a nós próprios. E esse é um ato de coragem brutal, porque se somos nós que temos o poder, somos nós que temos a responsabilidade.
A verdadeira rebeldia não é rebeldia senão integridade. Quando estamos em posse do nosso poder e assumimos a responsabilidade pelas nossas vidas começam a desfazer-se as querelas contra a autoridade, porque já não precisamos projetar autoridade em figuras externas. Já não precisamos viver em constante luta e podemos dar a reforma ao nosso querido rebelde interno, a que tanto nos afeiçoámos.

O Oráculo diz-nos que há momentos em que reunir essa coragem e afirmar-nos a nós próprios é uma questão de vida ou morte: quando há uma ou várias situações nas nossas vidas que nos envenenam, quando a energia ao nosso redor é tão tóxica que estamos doentes, deprimidos, anestesiados, exaustos, violentos.
Para não morrer em vida, alguma morte tem de acontecer. O que é que temos de soltar? A que falsas seguranças há que renunciar? De que confortos temos de abdicar? Que empregos, projetos, relações precisamos largar?
Ou talvez o grande ato de coragem seja o nosso próprio recolhimento. Um recolhimento temporal, cíclico. Permitir-nos retirar do rebuliço constante do mundo externo é a única forma de nos reencontrarmos com nós mesmos. Afastar-nos do ruído é a única forma de acedermos ao nosso silêncio interno e é nesse silencio que encontraremos os nossos valores, os nossos desejos, o nosso caminho. É no silêncio desse recolhimento que nos poderemos conhecer e reforçar laços de confiança com a nossa intuição e os nossos instintos.
Mas esse recolhimento não é um isolamento. É uma decisão consciente de ter momentos de disponibilidade para as demandas externas, e ter igualmente momentos de disponibilidade apenas para nós. E o que é que nos permite conectar connosco? O que é que nos nutre e nos inspira? O que é que nos recarga energia e nos regenera? Talvez meditar, escrever, pintar, dançar, rezar, ouvir música, fazer desporto… O que seja que nos ajude a criar pontes para essa parte de nós que o mundo nunca poderá civilizar. Porque, se buscamos afirmar-nos neste mundo, e se já chega de falsa rebeldia, é altura de recuperar esse outro “eu” interno que permanece puro e selvagem. Que não se rebela contra nada porque não se sente ameaçado por nada, porque permanece íntegro.
Esse outro “eu” a resgatar, é a parte de nós próprios com que poderemos realmente estar no mundo. É a nossa pureza, a nossa individualidade essencial.
Conectados com ela poderemos ocupar um lugar na sociedade sem descuidar a vida interior. Poderemos relacionar-nos com abertura sem que os demais nos devorem. Poderemos entregar-nos ao mundo sem nos perderemos de nós mesmos.

 

O Oráculo

Na Antiguidade consultar o Oráculo era um ato natural para buscar orientação. Porque para os antigos a relação com o mistério era algo natural – os seus deuses e deusas ajudavam-nos a dar sentido ao inexplicável e uma certa ordem ao caos próprio da existência humana.
A espiritualidade – a nossa relação com o que nos transcende – é nos dias de hoje algo cheio de associações duvidosas, de ambiguidades e de um ceticismo que mascara o nosso eterno medo face ao desconhecido. O resultado é uma profunda fome espiritual – somos uma sociedade desnutrida e desamparada, e a consequência são sintomas como a ansiedade e a adição.
Nos meus processos de experimentação como arte terapeuta descobri no Oráculo uma ferramenta de grande riqueza e potencial – a nível terapêutico, artístico, lúdico e espiritual – e criei este projeto  para trabalhar com o Oráculo a partir de métodos arte terapêuticos.
É um recurso que tenho vindo a explorar nos últimos anos e que tem sido fonte de nutrição e inspiração e, nesse sentido, proponho-me partilhá-lo de forma mais ampla, para além do espaço das minhas consultas e workshops.
Assim, mensalmente, partilho um texto escrito a partir de uma mensagem do Oráculo para todos nós. Um texto resultante do processo criativo em que as imagens, os mitos, os símbolos de diferentes cartas se transformam em palavra escrita. Não para “adivinhar”  mas para inspirar-nos a todos na criação dos nossos futuros.
É um projeto experimental, que se vai construindo de forma orgânica.
Um projeto para partilhar a inspiração do Oráculo e o seu potencial sanador e criativo.
Par ir reconciliando as ambiguidades, internas e externas, e as minhas próprias resistências acerca do que é um Oráculo.
E para continuar a experimentar e investigar as fronteiras do artístico, do mistério, do acaso, da intuição, da comunicação. Daquilo que é a consciência compartida onde todos estamos de alguma forma conectados, e em que as ações de um têm repercussões que nos afetam a todos.

 

Pintura da artista Clare Elsaesser

 

Oráculos

Abandone esa situación malsana, Archangel Michael, Doreen Virtue
She feels she knows, Sacred Rebels Oracle, Alana Fairchild
The cloak, Journey of love, Alana Fairchild
Artemis, Mythic Oracle, Carissa Mellado
Outdoors, Archangel Oracle, Doreen Virtue
El perrito de las praderas, Las cartas de la medicina, JamieSams y David Carson
La mariposa, Las cartas de la medicina, JamieSams y David Carson

O Oráculo – Desconhecer

“ Quando transcendemos os pares de opostos e podemos intuir o que há mais além do bem e do mal, abre-se a porta de acesso ao mistério.” Joseph Campbell

 

Não precisamos saber tudo, não precisamos entender o porquê de certas coisas, nem buscar incansavelmente todas as justificações. E se em vez disso nos abríssemos ao Mistério? O Mistério pela beleza do Mistério e não pelo afã compulsivo de tentar desvendá-lo.
Se a humanidade evoluiu científica e tecnologicamente como evoluiu foi certamente devido à curiosidade, à persistência em tentar entender e descobrir – explorando, experimentando, trabalhando. Mas o que é que podemos dizer da nossa evolução espiritual? Quantos de nós ouvimos a palavra “espiritualidade” e não podemos deixar de associá-la a religião, ou esoterismo ou espiritismo? Espiritualidade é a nossa conexão com a essência das coisas, com a alma do mundo, com nós mesmos, com o Mistério – o invisível, o desconhecido.
É realmente necessário separar tão drasticamente o sagrado e o quotidiano? Porque é que nos assusta tanto conceber que não existe só aquilo que vemos e conhecemos? Porque é que temos tanto medo?
Do medo à incerteza e ao desconhecido vem a necessidade de controlar tudo. Incapazes de confiar numa inteligência maior e no desígnio da própria Vida, torna-mo-nos omnipotentes e acreditamos que tudo passa pela nossa capacidade, ou incapacidade, de fazer acontecer. E vivemos uma existência desconectados da própria Existência. Porque espiritualidade é conexão – é reconhecermos a nossa relação direta com todas as coisas, é vivermos essa relação. Com a natureza, com a cidade em que moramos, com os alimentos que comemos, com os acasos, os imprevistos, as sincronias. Com o espírito das coisas que nos rodeiam, com o mundo externo e o mundo interno.
Como são essas relações? Há amor? Há diálogo? Há comunicação e entendimento? Ou somos surdos e mudos à vida ao nosso redor? Há fluidez e harmonia? Ou há resistência e conflitos? Há fé ou há descrença?

O Oráculo fala-nos de Abundância. Talvez porque já tivemos a nossa dose de escassez e os nossos corpos e os nossos espíritos pedem com Desejo – seja melhor saúde, prosperidade material e económica, relações profundas e significativas, desafios estimulantes, poder criativo.
Mas enquanto nos fala de abundância coloca-nos perante esta questão – “Até que ponto somos capazes de nos esvaziar para podermos receber?”
O que é que preenche a nossa vida neste momento? O que é que ocupa todo o espaço?
Muitos de nós temos vivido, ou vivemos nalgum momento, transformações pessoais que implicaram perdas. Muitos de nós vimos as nossas vidas e as nossas pessoas ficarem desprovidas daquilo que parecia ser essencial – coisas, pessoas, crenças, valores que tínhamos entranhados. E o que fica é um grande vazio.
E como é que nos relacionamos com esse vazio?
A abundância pede canais para entrar nas nossas vidas, e o vazio que fica depois de uma perda tem em si o potencial de se transformar em espaço para receber abundância. Se vivemos a perda com culpa ou com ressentimento o vazio deixa de ser canal pois fica obstruído.
Como é que nos relacionamos com a culpa, com a mágoa por tudo aquilo que não deu certo, por tudo aquilo que se perdeu? Como é que nos relacionamos?
Porque senão nos relacionamos não estamos a honrar, nem o valor das nossas experiências, nem os ciclos de transformação naturais, nem as oportunidades de recomeçar, nem os nossos sentimentos. Talvez seja demasiado, talvez necessitemos parar e reconhecer que é demasiado, e reconhecer que não estamos a conseguir sozinhos, e poder pedir ajuda. Porque, de facto, não estamos sozinhos. Não existimos isolados. Não somos omnipotentes. E não somos só um corpo, nem só emoções, nem só intelecto, nem almas “desencarnadas”. Somos todas essas coisas ao mesmo tempo.

A abundância que quer entrar nas nossas vidas pede-nos o reconhecimento dessa integridade. Pede-nos que honremos aquilo que sentimos – honremos a culpa, que a possamos sentir, encarar, permitir. E largá-la para que não se transforme numa emoção a obstruir os canais das novas manifestações. Pede-nos que honremos os nossos corpos – respeitando as suas necessidades, permitindo que expressem as emoções, escutando o seu desejo de sensualidade. E pede-nos que honremos a nossa alma – sabendo-nos conectados com o Todo, cultivando relações com a alma deste mundo que habitamos, e permitindo-nos a vulnerabilidade de não saber, de não poder tudo.
Permitindo-nos a vulnerabilidade de pedir – aos amigos, à família, aos terapeutas, aos “chamans”, aos céus, a Deus, a Buda, aos antepassados, ao Universo, à Vida. Simplesmente pedir. Convidar a Abundância. Bem no centro dos nossos vazios, expirando culpas e dores, inspirando gratidão e aceitação. Porque sem saber e sem poder tudo, perante o mais absoluto Mistério, é quando poderemos começar a receber, é quando poderemos recomeçar a viver.

 

Oráculos

Abundance of Sothis, Isis Oracle, Alana Fairchild
Perdónese, Archangel Michael, Doreen Virtue
The Prophet, Magdalene Oracle, Toni Carmine Salerno
From nothing to everything, Rumi Oracle, Alana Fairchild
Deméter, el Oráculo de la Diosa, Amy Sophia Marashinsky
Seek the counsel of your shamanic guides, Eye of the Soul, Cheryl Rose
The ancient ones, Journey of love, Alana Fairchild
Acorn’s Invitation, Faery Oracle, Lucy Cavendish

 

O Oráculo

Na Antiguidade consultar o Oráculo era um ato natural para buscar orientação. Porque para os antigos a relação com o mistério era algo natural – os seus deuses e deusas ajudavam-nos a dar sentido ao inexplicável e uma certa ordem ao caos próprio da existência humana.
A espiritualidade – a nossa relação com o que nos transcende – é nos dias de hoje algo cheio de associações duvidosas, de ambiguidades e de um ceticismo que mascara o nosso eterno medo face ao desconhecido. O resultado é uma profunda fome espiritual – somos uma sociedade desnutrida e desamparada, e a consequência são sintomas como a ansiedade e a adição.

Nos meus processos de investigação como arte terapeuta descobri nos Oráculos uma ferramenta de grande riqueza e potencial – a nível terapêutico, artístico, lúdico e espiritual – e criei o projeto Imaginário Oracular para trabalhar com o Oráculo a partir de métodos arte terapêuticos.

É um recurso que tenho vindo a explorar nos últimos anos e que tem sido fonte de nutrição e inspiração e, nesse sentido, proponho-me partilhá-lo de forma mais ampla, para além do espaço das minhas consultas e workshops.
Assim, mensalmente, partilharei um texto escrito a partir de uma mensagem do Oráculo para todos nós. Um texto resultante do processo criativo em que as imagens, os mitos, os símbolos de diferentes cartas se transformam em palavra escrita. Não para “adivinhar” nada mas para inspirar-nos a todos na criação dos nossos futuros.

É um projeto experimental, que se irá construindo de forma orgânica.
Um projeto para partilhar a inspiração do Oráculo e o seu potencial sanador e criativo.
Par ir reconciliando as ambiguidades, internas e externas, e as minhas próprias resistências acerca do que é um Oráculo.
E para continuar a experimentar e investigar as fronteiras do artístico, do mistério, do acaso, da intuição, da comunicação. Daquilo que é a consciência compartida onde todos estamos de alguma forma conectados, e em que as ações de um têm repercussões que nos afetam a todos.

 

Pintura de Emil Nolde

Acolher

O Oráculo diz-nos que a única forma de nos libertarmos dos condicionamentos do passado é encontrar a maneira de fazer as pazes com tudo o que nos aconteceu. Mais do que perdoar, mais do que aceitar, trata-se de poder acolher e validar esse passado.
O desafio é que possamos olhar para todas as nossas experiências com ternura, com a compreensão amorosa de uma mãe que vê a sua criança a fazer disparates porque precisa experimentar e descobrir-se a si própria e ao mundo.
Os erros, as desilusões, os projetos que simplesmente não vingam, sem que possamos entender porquê são passos inevitáveis, incontornáveis, num caminho de aprendizagem.

Não vivemos só a nossa vida, vivemos uma vida que é de todos, em que tudo está conectado. E há coisas que não dependem só do nosso esforço nem da nossa vontade.
Poder acolher as nossas experiências, ficar em paz com elas e com nós próprios, e continuar a caminhar é aquilo a que se chama Sabedoria. O contrário seria tentarmos avançar na vida com uma bola de chumbo amarrada a cada pé, arrastando desnecessariamente o peso dos nossos arrependimentos, culpas, ressentimentos e mágoas.

O Oráculo lembra-nos do processo criativo que é a nossa vida. Os processos são cíclicos e dinâmicos, são movimento constante. E o caos também faz parte do processo. Há um momento de desconstrução, ou mesmo de destruição, que dará lugar a um vazio.
Podemos aguentar esse vazio dentro de nós próprios? Podemos amparar-nos e manter a visão do nosso Desejo autêntico quando a destruição é tão brutal que já nem sabemos quem somos?
Podemos amar-nos ainda assim?
Podemos encarar os nossos grandes disparates, podemos encarar tudo o que desconhecemos de nós, tudo o que não gostamos, e ainda assim amar-nos? Parar de querer ser outra coisa, parar de lutar essa tremenda luta interna e abraçar tudo aquilo que somos?
Como se relacionam esse homem e essa mulher que nos habitam independentemente do nosso sexo? Como se relacionam o nosso Masculino e o nosso Feminino internos?

Porque só quando nos podermos respeitar e acolher tudo aquilo que somos nos tornamos suficientemente livres para ultrapassar os muros que nos separam do resto do mundo. Só com muita compaixão por nós mesmos ousaremos sair da nossa carapaça protetora, que nos mantém isolados, e nos autorizaremos a participar na vida como ela é. Com todos os nossos dons e talentos e peculiaridades, ao serviço do todo, em prol de um bem maior.

É imperativo cultivarmos essa consciência. As novas criações que querem emergir depois da destruição, depois do desmoronamento do velho, precisam nascer de uma consciência que reconhece e honra o comunitário. Precisamos estar para os mais velhos, para os mais novos, para o que a própria vida pede com urgência. Precisamos levantar a cara do nosso umbigo e reconhecer essa vida e esse todo com o qual estamos conectados.
O paradoxo é que para o podermos fazer precisamos reforçar o nosso sentido de individualidade. Se começamos por honrar, respeitar e amar a nossa própria singularidade já não nos sentiremos ameaçados pelo exterior, poderemos libertar-nos da auto-observação constante e extenuante e olhar verdadeiramente a vida ao nosso redor.
Libertaremos a energia que temos posto na necessidade de sobrevivência e poderemos pô-la no desejo de criação. E criar pode implicar um “começar de novo” – acolher o que não foi, o que não pôde ser, o que afinal não somos, e apresentar-nos com o que há.

O Oráculo insiste na relação que mantemos com nós próprios usando como metáfora a relação entre os nossos amantes internos. Recomeçar um processo criativo pede uma renovação de votos que celebre a união sagrada entre o nosso Masculino e o nosso Feminino.
Que o nosso Feminino, conectado com a vida e nutridor e, ainda assim, feroz no seu sentido de discernimento e de autonomia, possa receber o Masculino – não mais dominante nem tirano, não mais débil nem ausente, mas fortalecido, seguro e disponível. Porque um processo criativo – seja de uma obra ou da própria vida – implica a união amorosa e a colaboração entre estas duas energias internas. A energia masculina que suporta, assertivo e prático, o florescimento criativo da nossa mulher interior.
Esta união, esta parceria sagrada, é a manifestação do nosso compromisso com nós próprios, de honrarmos a pessoa que afinal somos e as experiências que vivemos. E o fruto desse compromisso serão novas criações, conectadas com a Vida e em sintonia com o desejo do Todo, do qual somos uma pequena e imprescindível parte.

 

Oráculos

Feminitud, La Sabiduría
Archangel Michael, Respect Yourself
Wisdom of Avalon, Disruption
Faery Oracle, Green man’s Bride
The secret language of animals, Elephant
Eye of the Soul, Adapt to a new situation
Wisdom Realms, The web weaver
Sacred Rebel, In the world, not of the world
Divine Circus, The juggler
Journey of Love, Burning Hero
Las cartas de la Medicina, el Oso
Maestros Ascendidos, Osiris

 

O Oráculo

Na Antiguidade consultar o Oráculo era um ato natural para buscar orientação. Porque para os antigos a relação com o mistério era algo natural – os seus deuses e deusas ajudavam-nos a dar sentido ao inexplicável e uma certa ordem ao caos próprio da existência humana.
A espiritualidade – a nossa relação com o que nos transcende – é nos dias de hoje algo cheio de associações duvidosas, de ambiguidades e de um ceticismo que mascara o nosso eterno medo face ao desconhecido. O resultado é uma profunda fome espiritual – somos uma sociedade desnutrida e desamparada, e a consequência são sintomas como a ansiedade e a adição.

Nos meus processos de investigação como arte terapeuta descobri nos Oráculos uma ferramenta de grande riqueza e potencial – a nível terapêutico, artístico, lúdico e espiritual – e criei o projeto Imaginário Oracular para trabalhar com o Oráculo a partir de métodos arte terapêuticos.

É um recurso que tenho vindo a explorar nos últimos anos e que tem sido fonte de nutrição e inspiração e, nesse sentido, proponho-me partilhá-lo de forma mais ampla, para além do espaço das minhas consultas e workshops.
Assim, mensalmente, partilharei um texto escrito a partir de uma mensagem do Oráculo para todos nós. Um texto resultante do processo criativo em que as imagens, os mitos, os símbolos de diferentes cartas se transformam em palavra escrita. Não para “adivinhar” nada mas para inspirar-nos a todos na criação dos nossos futuros.

É um projeto experimental, que se irá construindo de forma orgânica.
Um projeto para partilhar a inspiração do Oráculo e o seu potencial sanador e criativo.
Par ir reconciliando as ambiguidades, internas e externas, e as minhas próprias resistências acerca do que é um Oráculo.
E para continuar a experimentar e investigar as fronteiras do artístico, do mistério, do acaso, da intuição, da comunicação. Daquilo que é a consciência compartida onde todos estamos de alguma forma conectados, e em que as ações de um têm repercussões que nos afetam a todos.

 

Detalhe da pintura “Mujer ante el espejo”, Picasso

Histórias de Mulheres

“Talvez nasçamos a saber os contos das nossas avós e parentes ancestrais, que nos correm no sangue repetindo-se interminavelmente, e o choque que sentimos quando pela primeira vez temos de suportá-los talvez não seja de surpresa mas sim de reconhecimento.” P. L. Travers (autora de Mary Poppins)

O choque vem quando, a certa altura, percebemos que isso que estamos a viver não é só a nossa história. É uma história que se repete, como as lendas da nossa terra que vão passando de geração em geração. Uma história que tem vida própria.
Perceber isso é sem dúvida um choque.

Mas podemos ver essa história como uma raiz que nos ajude a lembrar e nos devolve ao essencial.
E a partir dela criar novas histórias para as novas gerações.
Se podemos ver, podemos escolher e começar a perguntar-nos “Que legado desejamos agora criar?”

 

 

Collage para a tese “Árvores flutuantes, uma viagem no feminino – arte terapia com mulheres imigrantes”.

O Oráculo, Amor de Verdade

Amor de Verdade

O Oráculo fala-nos de Amor. Que esperanças de amor, que sonhos e visões morrem e nascem em nós nestes momentos de mudanças?
Que crenças sobre o amor nos pede a vida que larguemos para podermos começar um novo ciclo vital? Podemos enfrentar as ilusões que construímos e permitir a dor e o alívio da claridade ou preferimos ainda a dormência do auto engano?

Talvez tenhamos atravessado um período de desmoronamento de certos aspetos das nossas vidas, talvez tenhamos sido forçados a encarar o que durante muito tempo não podíamos ver. Por mais que o engano assuma uma forma externa é sempre um reflexo de ilusões de autoria própria. Talvez estejamos de luto. Talvez nos assaltem a raiva e a indignação. Talvez possamos começar a ver em nós a sombra das circunstâncias que tanto negámos. E talvez nos assombre a culpa.
A tristeza serve um propósito, a raiva também, a culpa não. A culpa corrói, é uma barreira que nos priva da beleza, do gozo, das dádivas do presente. Por isso é altura de sermos práticos e transformarmos a culpa em auto-responsabilização. É altura de nos apropriarmos das nossas experiências, usá-las como impulso para avançar e elixir para nos fortalecer. Sobretudo porque, ao assumirmos a nossa responsabilidade pelo que se manifestou, estamos a recuperar o nosso poder criador. E é-nos dada a oportunidade de criar algo diferente.

O Oráculo diz-nos para sermos conscientes dessa oportunidade. Convida-nos a abraçar esse poder criador e a embarcar no processo criativo do novo ciclo das nossas vidas. Incita-nos a render formulas antigas e crenças desatualizadas para não repetirmos o auto engano. Para não criarmos novas ilusões com base no que “é suposto” e no que pensamos que se espera de nós.
Passado e futuro convergem neste momento presente e agora a escolha é nossa.
Que futuro sonhamos para nós e para as novas gerações? Podemos silenciar todas as vozes dentro e fora e ouvir apenas o impulso do nosso coração? Podemos ser suficientemente corajosos para nos encontrarmos frente a frente com a nossa Verdade? Ou precisamos que nos continuem a dizer o que devemos querer, que trabalhos devemos fazer, que relações devemos desejar? Precisamos continuar a buscar fora quem achamos que devemos ser?

Se no passado criámos ilusões e se assistimos ao seu desmoronamento, é sinal que o nosso coração deseja algo diferente para nós. Aproveitemos o impacto da desilusão. Aproveitemos o grande, imenso, profundo vazio que se nos apresenta no horizonte como um implacável oceano. É como o útero no qual uma nova vida poderá ser gerada e como as águas que a acolhem. E se escolhemos recuperar o nosso poder criador saberemos que é nas águas silenciosas que começa a criação. No mundo líquido dos sonhos e da memória.
Porque aí sonhamos um futuro comum neste universo comum. Aí sabemo-nos parte de um todo, aí o meu sonho de amor e de paz é o sonho de todos, é o sonho dos que já cá não estão e é o sonho dos que virão.
E é nesse mesmo lugar intemporal onde podemos encontrar a nossa singularidade e emergir com o conhecimento do lugar e do papel que nos toca no tecido comum. Aí no vazio, no inconsciente, no silêncio. O Oráculo fala-nos da importância de reconhecermos e expressarmos essa singularidade. De nos honrarmos, honrando os nossos dons e a nossa forma única de participar no futuro que desejamos. Ousando brilhar e partilhar a luz que existe em nós. Já não nos podemos dar ao luxo de privar o mundo dessa luz. Já não nos podemos permitir continuar a alimentar dúvidas e crenças de escassez e competitividade. Já não podemos continuar a alimentar o mundo de medo. É altura de escolher amor.

Escolher amor implica transmutar a visão de nós próprios como eternas crianças feridas e confiar na vida. Talvez não tenhamos experimentado nutrição e abundância no passado. Podemos ainda assim acreditar que podemos experimentá-las agora? Podemos pedir, desejar, afirmar que desejamos sentir-nos amados, nutridos e viver em plenitude? Podemos chorar as nossas mágoas e gritar as nossas raivas e depois avançar para um futuro no qual reivindicamos o nosso direito ao amor e à abundância?
Não desde a exigência da ferida, mas de uma amorosa compaixão. Não desde a pressa nem do forçar acontecimentos,mas da confiança nos processos. A confiança na nova vida, no novo ciclo, no novo amor.
A confiança no amor que se quer manifestar nas nossas vidas porque é o sonho comum, e o sonho comum tem muita força. Se permitirmos terá muito mais força do que qualquer necessidade de ilusões. Se permitirmos inspirará claridade nas nossas vidas. Porque é muito maior, é imenso, é expansão. E é de Verdade.

 

Oráculos

“Love”, Wisdom of Avalon
“Magdalene”, Magdalene Oracle
“Gaia’s Dragon”, Dragonfae Oracle
“Chumara”, Dragonfae Oracle
“ Dryster”, Dragonfae Oracle
“Dreamcatcher”, Dragonfae Oracle
“Oonagh”, Oracle de les Déesses
“The cow”, Wisdom of Avalon
“As de Michel”, Tarot des Archanges
“Roi de Raphael”, Oracle des Anges
“Culpa”, Tarot de Osho

 

Pintura “O nascimento de Vénus”, Botticelli

 

O Oráculo

Na Antiguidade consultar o Oráculo era um ato natural para buscar orientação. Porque para os antigos a relação com o mistério era algo natural – os seus deuses e deusas ajudavam-nos a dar sentido ao inexplicável e uma certa ordem ao caos próprio da existência humana.
A espiritualidade – a nossa relação com o que nos transcende – é nos dias de hoje algo cheio de associações duvidosas, de ambiguidades e de um ceticismo que mascara o nosso eterno medo face ao desconhecido. O resultado é uma profunda fome espiritual – somos uma sociedade desnutrida e desamparada, e a consequência são sintomas como a ansiedade e a adição.

Nos meus processos de investigação como arte terapeuta descobri nos Oráculos uma ferramenta de grande riqueza e potencial – a nível terapêutico, artístico, lúdico e espiritual – e criei o projeto Imaginário Oracular para trabalhar com o Oráculo a partir de métodos arte terapêuticos.

É um recurso que tenho vindo a explorar nos últimos anos e que tem sido fonte de nutrição e inspiração e, nesse sentido, proponho-me partilhá-lo de forma mais ampla, para além do espaço das minhas consultas e workshops.
Assim, mensalmente, partilharei um texto escrito a partir de uma mensagem do Oráculo para todos nós. Um texto resultante do processo criativo em que as imagens, os mitos, os símbolos de diferentes cartas se transformam em palavra escrita. Não para “adivinhar” nada mas para inspirar-nos a todos na criação dos nossos futuros.

É um projeto experimental, que se irá construindo de forma orgânica.
Um projeto para partilhar a inspiração do Oráculo e o seu potencial sanador e criativo.
Par ir reconciliando as ambiguidades, internas e externas, e as minhas próprias resistências acerca do que é um Oráculo.
E para continuar a experimentar e investigar as fronteiras do artístico, do mistério, do acaso, da intuição, da comunicação. Daquilo que é a consciência compartida onde todos estamos de alguma forma conectados, e em que as ações de um têm repercussões que nos afetam a todos.

O Oráculo, Criar o futuro do mundo

O Oráculo

Na Antiguidade consultar o Oráculo era um ato natural para buscar orientação. Porque para os antigos a relação com o mistério era algo natural – os seus deuses e deusas ajudavam-nos a dar sentido ao inexplicável e uma certa ordem ao caos próprio da existência humana.
A espiritualidade – a nossa relação com o que nos transcende – é nos dias de hoje algo cheio de associações duvidosas, de ambiguidades e de um ceticismo que mascara o nosso eterno medo face ao desconhecido. O resultado é uma profunda fome espiritual – somos uma sociedade desnutrida e desamparada, e a consequência são sintomas como a ansiedade e a adição.

Nos meus processos de investigação como arte terapeuta descobri nos Oráculos uma ferramenta de grande riqueza e potencial – a nível terapêutico, artístico, lúdico e espiritual – e criei o projeto Imaginário Oracular para trabalhar com o Oráculo a partir de métodos arte terapêuticos.

É um recurso que tenho vindo a explorar nos últimos anos e que tem sido fonte de nutrição e inspiração e, nesse sentido, proponho-me partilhá-lo de forma mais ampla, para além do espaço das minhas consultas e workshops.
Assim, mensalmente, partilharei um texto escrito a partir de uma mensagem do Oráculo para todos nós. Um texto resultante do processo criativo em que as imagens, os mitos, os símbolos de diferentes cartas se transformam em palavra escrita. Não para “adivinhar” nada mas para inspirar-nos a todos na criação dos nossos futuros.

É um projeto experimental, que se irá construindo de forma orgânica.
Um projeto para partilhar a inspiração do Oráculo e o seu potencial sanador e criativo.
Par ir reconciliando as ambiguidades, internas e externas, e as minhas próprias resistências acerca do que é um Oráculo.
E para continuar a experimentar e investigar as fronteiras do artístico, do mistério, do acaso, da intuição, da comunicação. Daquilo que é a consciência compartida onde todos estamos de alguma forma conectados, e em que as ações de um têm repercussões que nos afetam a todos.

 

Criar o futuro do mundo

O Oráculo diz-nos que começamos a despertar para os nossos dons e talentos e que é momento de nos perguntarmos – como podemos contribuir para o futuro deste mundo?
É tempo de manifestarmos, de expressarmos o nosso potencial e abraçarmos o nosso poder criativo – que sonhos, que visões alimentamos?
Temos uma chama cá dentro, é o poder de criar e fazer encarnar aquilo em que nos decidimos focar.
Podemos ver prosperidade? Ousamos sonhar? O desejo chama-nos, a sussurrar e a gritar aquilo que o coração quer. Podemos escutar? Podemos calar o ruído externo, das expectativas e convenções, e ouvir apenas a voz dos nossos corações?
Se é tempo de criar é tempo de confiar, saber que aquilo que mais desejamos também chama por nós. Saber que podemos ousar e pôr toda a nossa energia em manifestar – confiando na obra, no projeto, na saúde, na relação que quer nascer. Porque o processo não tem de ser uma luta, um constante ato de forçar e fazer acontecer. A vida já sabe. A vida sabe o caminho e a vida está por nós, oferecendo-nos imprevistos, erros, sincronias, falando na língua dos acasos e das coincidências. Só temos de escutar a sua voz, sintonizar a nossa vontade com a sua e os nossos tempos com os seus. E honrar o desejo de criar, confiando no processo e deixando-nos guiar.
Essa é a sabedoria. Porque não estamos sós e os nossos sonhos não existem isolados. Não estamos realmente separados, a criatividade de um é a criatividade de todos, e no final tudo converge.
É tempo de ampliar, de abranger, de expandir. Ver o todo e não perder a continuidade. Ver de longe e ver de dentro. Porque ao ir dentro encontramos a sabedoria e, ao afastar-nos o discernimento. Sejamos árvores, de raízes bem profundas e ramos abertos ao vento.
Para criar e realmente manifestar, precisamos encontrar esse momento, esse lugar, em que o nosso espírito e a nossa realidade são como dois amantes, saciados e cansados, que se começam a aceitar.

Somos feitos de dualidades, habitam-nos os amantes, vivem em nós todas as vidas que vivemos antes. Habitam-nos os nossos antepassados, nos sonhos e nos medos, nas esperanças que nos movem, nos dogmas que nos frenam.
Somos singulares mas somos tantos, e nenhuma parte desse todo se deve descuidar. Se a parte que sonha se desvia, se a que busca se congela, se a desconhecida está ausente… Há que recuperá-las e reuni-las, para que possamos estar inteiros neste momento presente.
Somos livres mas pertencemos, e para que os nossos dons se possam expressar, há que abrir e abraçar, tudo o que em nós pode criar.
E tal como por vezes há que largar para receber, para curar há que morrer. Em pequenas doses, como o antídoto feito do veneno. Há que saber, quando a ferida mais dói é quando começa a sanar. Podemos gritar, podemos espernear, podemos querer de volta o mal estar habitual, mas se realmente queremos avançar saberemos quando é momento de libertar.
O que nos ata à dor é o que nos ata ao nosso lugar, cómodo, previsível, onde nada pode passar. E o processo de curar e poder integrar todas as partes de nós é o caminho para nos apropriarmos de todo o nosso poder, de tudo aquilo que podemos ser.

Estão aí os talentos, escondidos nas feridas, desviados pelos medos, devorados pelos traumas.
O que podemos contribuir para o futuro deste mundo começa por escarafunchar bem fundo, limpar as feridas de onde os dons para criar poderão por fim sair e, livres, começar a circular.

 

 

Oráculos:

“My creative power”, Soulful Women Oracle

“Spirals of manifestation”, Sacred Rebels Oracle

“Divine Intervention”, Eyes of the Soul Oracle

“Ascension”, Magdalene Oracle

“Eye of Horus”, Isis Oracle

“See the signs”, Messengers Oracle

“Yin Yang Lover”, Journey of Love

“Quiron, healing”, Mythic Oracle

“Drangonfae of Rebirth”, Oracle of the Dragonfae

“Tenga confianza en sí mismo”, el Arcángel Miguel

“Sota de Oros”, Shadowscapes tarot

 

Pintura “Starry Night Over the Rhône”, Vincent Van Gogh

 

 

 

 

 

“Na selva vestida de mim”

A vida está cheia de portas, já sei, se encontro uma, há que atravessar.
O lugar onde me encontro, já não é o meu lugar. A porta convida-me a entrar, é a vida que me chama, que me incentiva avançar.
Do outro lado, o desconhecido. E o medo que me quer parar. Não faz mal, levo o medo, dou-lhe a mão, não deixo que me diga “não”. O medo que conheço é um alerta, um bálsamo que me mantém desperta.
Do outro lado sou estrangeira. E a luta por encaixar. Não faz mal, levo a estrangeira no coração. Não luto, não pertenço, só na alma, só à Terra, e encontro conexão.
Sem a luta vem a dor, mas não resisto, sinto tudo na palma da mão. Toco a Lua, encontro a memória e recebo a certeza da minha natureza. Recebo o meu lugar.
Abro as mãos, entrego a dor. Como se libertasse peixes nas águas do mar. Como a árvore larga as folhas para que o inverno possa chegar.
Largo, porque sei que tudo volta. Morro, porque há outra vida que quer começar. Atravesso a porta para a encontrar.

O desconhecido é um lugar selvagem, e na selva há que ser fera. Toda instinto e presença, despida de regras, de obediência.
Talvez aí onde sou estrangeira encontre a certeza, a essência da minha natureza.
Que ouça todos os silêncios, que venere todos os mistérios.
Que me banhem novas cores, que me encham de sabores. E que da minha pele nua na terra nasçam flores.
A beleza não é tua, é filha do Desejo. Confio, por fim. Celebro o êxtase de todas as mulheres em mim. Digo que sim e lanço a minha voz. Espero que chegue a ti.

Atravesso esta porta e, sem lugar, descubro onde tenho de estar.
Aqui, não há nada a perder, não há nada que me canse. Entrego, recebo, um desejo sem fim… toda a vida ao meu alcance.

 

Pintura “The dream”, Henri Rousseau

A prática artística

Este Verão volto a fazer “O caminho do Artista”.
Mergulho no primeiro capítulo e começo a olhar para as crenças que influenciam a forma como me relaciono com a criatividade – crenças que me foram transmitidas a nível cultural, social, familiar, etc. Ao chapinhar um bocado nas águas frias e turvas das crenças que dificultam a expansão criativa, encontro um desses peixes que podem picar e fazer muito mal – a crença de que “a prática artística não serve para nada.”
Deve ser uma dessas pérolas transmitidas de geração em geração pois vem-me imediatamente a imagem da artista criança que passava os dias a pintar e a desenhar.
Mas um dia a criança cresce e a artista vê-se confrontada com a questão “Que lugar deve ocupar a expressão artística na minha vida?
E é aqui que alguns artistas começamos a tentar que a nossa prática “sirva para alguma coisa”, ou seja , que tenha uma utilidade. Assim, aquilo que durante muito tempo fazíamos por curiosidade, brincadeira, prazer, começa a sofrer pressões.

Em “Big Magic”,o seu livro sobre o processo criativo, Elisabeth Gilbert fala sobre os perigos de os artistas exigirmos certos resultados à nossa criatividade, como esperar que seja o nosso sustento económico, ou fonte de reconhecimento. E como em qualquer relação, quando começam a surgir pressões e exigências, tudo deixa de fluir.

Estes dias serviu-me de inspiração ver a minha sobrinha de 5 anos em plena prática artística.
Encontrou as minhas cartas com imagens de sereias e, depois de observar cada uma das 56 imagens e selecionar as que mais gostava, disse que também sabia desenhar sereias. Ofereci-lhe papel e umas ceras que se podem utilizar com água.
Passou quase duas horas deitada no chão a pintar a sua sereia e todos os animais aquáticos que a acompanham – experimentando todas as cores, explorando diferentes maneiras de passar a cor para o papel (consciente que estava a provar e que há muitas maneiras de pintar com uma cera), e jogando com os efeitos da água enquanto falava sem parar.

O mito da sereia é uma boa metáfora para a vida criativa. O mundo exterior desperta curiosidade e queremos ser parte dele. A questão é poder encontrar uma maneira de “ir lá para fora” e participar sem sentir que temos de abdicar da nossa voz. Sem comprometer a nossa capacidade de expressão essencial. Como diz Monique Grande em “Feminitud”, “ Já não temos de perder a nossa voz para usar as nossas pernas.”
A crença de que “a prática artística não serve para nada” é no fundo a mensagem de que para ter direito a um lugar no mundo temos de ser produtivos, ou seja,  não sair do rebanho e cumprir com as obrigações que se esperam de nós.
Uma prática artística não só nos mantém em conexão com a nossa singularidade senão que a alimenta. A arte é transgressiva. Por isso mais vale levarem-nos a acreditar que não serve para nada. Porque a partir do momento em que os artistas começarmos a dar o devido valor à prática em si e a nutrir a nossa singularidade – sem esperar o reconhecimento, aceitação ou permissão do mundo – seremos catalisadores de transformações, tal como o foram todos os artistas que nadaram nas águas da sua criatividade sem permitir que as crenças os assustassem ou dissuadissem desses profundos mergulhos.

 

Criar o futuro

No outro dia a passear por Gràcia deparei-me com esta conhecida frase de Abraham Lincoln:
“The best way to predict your future is to create it.”

Quis o acaso que uns dias depois, na mesma rua onde lera a frase, encontrasse um artista a trabalhar na imagem da foto.

Como arte terapeuta um dos recursos que mais utilizo é a Metáfora, que trabalho através dos Oráculos e do jogo do acaso. O acaso serve como ponte para o inconsciente, tal como a expressão artística – não se trata de magia nem de predição, mas de conectar com o inconsciente porque sem entrar nesses lugares desconhecidos não pode haver criação autentica.

Trabalhar através da arte – com metáforas, com imagens, com símbolos e personagens – é como entrar num atelier, cheio de materiais à disposição e grandes folhas em branco, para criar o meu próprio futuro.

E a possibilidade de criar o futuro que desejo viver, mesmo com todas as resistências que possam surgir, é a única forma de não ser vítima das circunstâncias. No fundo, é uma questão de escolha.

“Um pouco de morte cada dia”

“Seremos feitos de tal massa que precisaremos tomar diariamente pequenas doses de morte, sob pena de não conseguirmos cumprir a missão de viver?”

Encontro esta questão em “Orlando”, de Virgina Woolf, e lembro-me de um sonho que tive há uns anos em que alguém me dizia a estranha frase “Toma um pouco de morte cada dia”.
Agora entendo, ou volto a entender.
Há trabalhos que temos de deixar, há relações que têm de acabar, há pontos de apoio que se tornaram cargas e que é preciso soltar.
Quando nos agarramos demasiado ao que já não é vital começamos a morrer em vida, a nossa existência intoxica-se.
As “pequenas doses de morte” é aquilo que nos mantém vivos na vida, é o que nos permite “cumprir a missão de viver”.