Performance

As vezes reúno uns quantos livros de um mesmo tema e, em modo de oráculo – abrindo uma página ao acaso – peço inspiração para esse tema.
Não me canso de ler, conversar, (perseguir obsessivamente!), experimentar, tudo o que se relacione com o processo de criação artística. Assim, o que partilho aqui é um desses exercícios experimentais.

A partir dos livros que mostro na foto, transcrevo uma frase, abrindo ao azar. Sublinho as palavras que me chamam atenção. Depois volto a escrever essas palavras ou expressões numa nova folha e, a partir do que me invocam escrevo um texto.

 

Hoje surpreende-me o quanto as palavras sublinhadas me remetem indubitavelmente para o conceito de “Performance”:

“A performance é um espetáculo ritual.
Pede a implicação absoluta do artista. É auto observação em movimento. Não é para qualquer artista. É para o artista-chamán, para o artista-alquimista, para o artista-revolucionário, para o artista-pessoa. Para o artista que conhece o poder da arte para gerar transformação. O artista que não teme procurar e encontrar a essência da natureza humana.
A vida é uma trama feita de muitas performances, de inúmeros desempenhos. Que papel me concedo? Como me quero sentir? O que quero provocar nos outros? Temo a rejeição? Temo o boring? Onde me foco, no interno ou no externo?
Que arte decido criar? Uma arte que liberte o indivíduo das suas ataduras cósmicas? Ou uma arte que as consagra? O nosso verdadeiro poder é a escolha, e ao escolher há que saber o que se está disposto a sacrificar.
O princípio masculino, associo-o aos resultados. O princípio feminino aos processos. Uma importante escola artística do séc. XX foi a Bauhaus, que significa “casa em construção”. Se a arte, se a performance encontra o seu paralelismo na vida real, então os resultados são no fundo ilusão. Porque tudo é cíclico, tudo se desmonta e desfaz e se recomeça de novo. A vida é uma obra de arte em construção. E, se não me foco demasiado nos resultados, estou presente. Como me sinto então?
Para além da relação olho, mente, mão. Não sou em fragmentos. Se entro inteira na minha casa em construção o expressionismo passa apenas a ser expressão.
A performance é um espetáculo concebido com uma intenção. E há que conceber, esboçar, ensaiar, construir, criar as condições. Preparar o ritual. Tudo para que o improviso possa suceder. Porque depois é tudo corpo e, se estou presente, sou canal. Movimento o assombroso. As células transformam-se no meu corpo num segundo. Humilde e com arte. Que se revele assim o verdadeiro rostro deste mundo.”

 

Autonomia II

A questão é, poder ocupar um lugar no mundo, no exterior, e ser visível, e participar, e implicar-se, sem comprometer aquilo que se é.
Sem se perder nas regras, explícitas e implícitas do entorno, sem desaparecer na vontade e expectativa externas, sem se “vender”, sem tentar encaixar.

Ser autónoma e “viver na presença da realidade, uma vida tonificante, de uma maneira visível” é para a mulher poder ocupar o seu lugar e ser soberana da própria vida.
E, no entanto, é possível a mulher manter-se fiel aos seus valores e, ainda assim, gerar o próprio dinheiro e construir uma verdadeira Autonomia?

Talvez muitas de nós estejamos a fazer um “shift” interno, um reposicionamento de atitude face a certas crenças, sejam elas próprias, herdadas, ou implementadas pela família/ cultura/ sociedade.
Talvez estejamos a questionar essas crenças e a maneira como se aplicam às nossas vidas.
E é necessário esse questionamento. Se queremos trabalhar, com “Prazer” e “Inocência” – movidas pelo que nos interessa, pelo que alimenta a nossa curiosidade, naquilo em podemos pôr os nossos dons em circulação. Sem negociar, sem prostituir, esses dons, recursos, conhecimentos.
E sem ter de escolher entre fazer algo em que se acredita ou ser bem sucedido financeiramente, socialmente.

Ocorre-me o discurso de Madonna. Porque há uma certa atitude desafiante, ou mesmo guerreira, nisto tudo. A atitude de acreditar firmemente numa mesma e no próprio valor, sem deixar de ter presente a vulnerabilidade. “In life there is no real security except self-belief”.

 

Há quase um ano atrás, fiz uma sessão com os Oráculos orientada para os propósitos de Ano Novo na Holanda, e éramos quatro mulheres. O propósito ou intenção das quatro era o mesmo – poder conciliar os diferentes aspetos que assumimos como mulheres, e tentar encontrar um equilíbrio na dedicação a cada um.
Porque queremos Autonomia, mas sem sacrificar a Criatividade, nem a Maternidade, nem o Amor. E parece uma dessas tarefas impossíveis incumbidas pelos deuses!
Neste momento precisamos acreditar que não é impossível ou utópico. Que, de alguma forma, poderemos reunir a mulher autónoma, com a mulher mãe, com a criativa, com a esposa, com a amante, numa espécie de irmandade interna. Cada uma acompanhando, inspirando e potenciando as outras, para que a soma do potencial de cada uma seja a concretização de todas. Sem as rivalidades que as mulheres cultivamos umas com as outras, como se não houvesse no mundo realização, sucesso, amor, abundância para todas, projetando na nossa “próxima” a sombra que não podemos encarar em nós mesmas.

 

Tal como diz Madonna “If you are a girl you have to play the game (…) be what woman feel confortable with you being around other man”.
E tal como diz Virginia Woolf “As mulheres sao duras para com as mulheres.”
Somos duras umas com as outras porque somos duras connosco próprias.
Mas quando começarmos a honrar cada parte de nós mesmas, quando começarmos a olhar com ternura os nossos limites e vulnerabilidades, quando começarmos a encarar com compaixão as nossas sombras refletidas nas outras mulheres, quando começarmos a ousar acreditar no nosso valor… Aí é quando podemos começar a mudar “o jogo”.

E quando “o jogo” mudar, a Autonomia não terá de ser, para a mulher, uma luta. Porque não teremos de deixar de ser mulheres, mães, amantes, artistas, para ser autónomas.

 

Pintura “Sogni”, Vittorio Corcos

 

 

Autonomia

“Quando vos peço para ganhardes dinheiro e terdes um quarto vosso, estou a pedir-vos que vivais na presença da realidade, uma vida tonificante, de uma maneira visível, quer participeis ou não.” Virginia Woolf

 

Porque a Autonomia, e não posso deixar de falar sob o ponto de vista de mulher, é gerar o próprio dinheiro, ter um espaço de encontro com uma mesma, e assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas. Viver na “presença da realidade”.

Há dois anos, escrevia na minha tese – baseada no trabalho com mulheres imigrantes através da Arte Terapia – o seguinte texto sobre a Autonomia e a sua relação com a maternidade:
“ Enquanto a maternidade não me forçou a assumir essa condição de dependência e vulnerabilidade vivia num estado ilusório de mulher autónoma. E ao olhar para estas mulheres essa ilusão fica despedaçada.
Onde fica assim o desejo comum a todas de nos enraizarmos, de encontrarmos um lugar nesta terra? Porque esse desejo de estar no mundo parece incompatível com a aniquilação de ter necessidades, incompatível com a obediência. E como render-nos à consciência de uma dependência e vulnerabilidades tão exacerbadas pela maternidade e, ainda assim, construirmos uma autonomia real?”

 

Esta semana jogo com as imagens, para celebrar novos passos no caminho da Autonomia. As imagens para sair do discurso reflexivo e entrar no campo do poético.
Assim, a partir desse jogo, este texto:

“Reconheço este caminho e em cada imagem um passo caminhado.
Reconheço a Criança, diante de um portão cerrado, e do outro lado, o que não está ao seu alcance.
Reconheço a Sabotadora, que canta a lengalenga como um disco avariado, “isso que desejas, não é para ti.”
E ao mesmo tempo a Anciã, que vê mais, que vê para além das feridas que limitam e condicionam.
Reconheço a Obediência, a que procura agradar a todos, e corresponder ás expectativas, reais ou imaginadas.
E reconheço a Dor de quem se dá conta, de mãos dadas com o alívio de receber claridade no que antes era indistinto.

Claro que tem de haver uma Iniciação! Só não estamos habituados a elas. Uma Iniciação para passar da independência ilusória a uma verdadeira Autonomia.
Porque nalgum momento vou ter de me ver, reconhecer, tornar-me íntima de mim mesma. Saber os contornos dos meus limites e saber onde há janelas abertas ao mundo para experimentar a expansão.
Saber, talvez, que em mim também há energia masculina. E saber que há desejo de prazer e alegria.
Porque se Autonomia é independência e liberdade, que melhor guia para me orientar neste caminho que a escolha de ser íntegra, sabendo que “Inocência” e “Prazer” caminham lado a lado?”

 

 

If

“If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;
If you can think—and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And—which is more—you’ll be a Man, my son!”

 

Rudyard Kipling

A experiência estética

A experiência estética é o encontro com a obra de arte. Sendo que a obra pode ser um desenho, um poema, um texto, uma imagem, uma canção.
Todos nós já experimentámos nalgum momento os efeitos reparadores e transformadores deste encontro com a obra, fosse num concerto, numa sala de cinema ou mesmo perante o desenho de uma criança. No entanto quantos de nós recorremos conscientemente à experiência estética como medicina? Ou como nutrição?

A arte, a beleza, a experiência estética são nutrientes essenciais para a vitalidade do nosso espírito.
Vivemos tempos de alienação da dimensão sagrada das nossas vidas. A insatisfação crónica, as adições, o consumismo são os sintomas de uma imensa fome espiritual.
Queremos plenitude nas nossas vidas, criar projetos, construir famílias, manifestar o nosso potencial através de relações saudáveis e trabalhos satisfatórios. Mas, como nos nutrimos? O que é que nos inspira? Qual é o combustível para potenciar a nossa vitalidade e poder criativo?

Sem inspiração não há esforço que nos valha.
A inspiração é o alimento do espírito. Vem do latim inspiratio e do verbo inspirare, que significa soprar ou insuflar. Recebeu a conotação “respirar profundamente” ou “ insinuar algo no coração de alguém”.
Tal como o ato de nos alimentarmos é intencional também o pode ser o ato de nos inspirarmos, o ato de insinuar algo nos nossos corações. É um ato de auto responsabilização na medida em que escolhemos potenciar a nossa criatividade. Não só para criar projetos, trabalhos, obras, mas para sermos criadores da nossa existência.
É uma questão de alimentar a minha paixão pela vida. Porque é essa paixão que insufla ar nos meus Desejos e é a minha relação com esses Desejos que ditará a qualidade da minha vida.

 

Um sentido de Beleza

A vida fala-nos através dos acontecimentos quotidianos – as coincidências, os acasos, os imprevistos, os acidentes, as situações que se repetem.
Paul Auster chama-lhe “a poesia da vida”, Kundera fala de um sentido de beleza, da vida composta como uma partitura musical. Paulo Coelho, na sua obra “O Alquimista”, chamava-nos a atenção para os Sinais.
Mas podemos , embrenhados como estamos nos afazeres dos nossos dias, prestar atenção a algo mais que não seja às coisas concretas e imediatas?
Com que frequência nos deixamos surpreender pela poesia da vida, por esses acontecimentos que, de forma improvável, rimam entre si?
Podemos receber , de alguma maneira, esses oráculos quotidianos? Podemos parar e questionar-nos? Com que atitude respondemos a essas “chamadas de atenção” que a vida usa para se comunicar connosco?

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