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O Oráculo, Amor de Verdade

Amor de Verdade

O Oráculo fala-nos de Amor. Que esperanças de amor, que sonhos e visões morrem e nascem em nós nestes momentos de mudanças?
Que crenças sobre o amor nos pede a vida que larguemos para podermos começar um novo ciclo vital? Podemos enfrentar as ilusões que construímos e permitir a dor e o alívio da claridade ou preferimos ainda a dormência do auto engano?

Talvez tenhamos atravessado um período de desmoronamento de certos aspetos das nossas vidas, talvez tenhamos sido forçados a encarar o que durante muito tempo não podíamos ver. Por mais que o engano assuma uma forma externa é sempre um reflexo de ilusões de autoria própria. Talvez estejamos de luto. Talvez nos assaltem a raiva e a indignação. Talvez possamos começar a ver em nós a sombra das circunstâncias que tanto negámos. E talvez nos assombre a culpa.
A tristeza serve um propósito, a raiva também, a culpa não. A culpa corrói, é uma barreira que nos priva da beleza, do gozo, das dádivas do presente. Por isso é altura de sermos práticos e transformarmos a culpa em auto-responsabilização. É altura de nos apropriarmos das nossas experiências, usá-las como impulso para avançar e elixir para nos fortalecer. Sobretudo porque, ao assumirmos a nossa responsabilidade pelo que se manifestou, estamos a recuperar o nosso poder criador. E é-nos dada a oportunidade de criar algo diferente.

O Oráculo diz-nos para sermos conscientes dessa oportunidade. Convida-nos a abraçar esse poder criador e a embarcar no processo criativo do novo ciclo das nossas vidas. Incita-nos a render formulas antigas e crenças desatualizadas para não repetirmos o auto engano. Para não criarmos novas ilusões com base no que “é suposto” e no que pensamos que se espera de nós.
Passado e futuro convergem neste momento presente e agora a escolha é nossa.
Que futuro sonhamos para nós e para as novas gerações? Podemos silenciar todas as vozes dentro e fora e ouvir apenas o impulso do nosso coração? Podemos ser suficientemente corajosos para nos encontrarmos frente a frente com a nossa Verdade? Ou precisamos que nos continuem a dizer o que devemos querer, que trabalhos devemos fazer, que relações devemos desejar? Precisamos continuar a buscar fora quem achamos que devemos ser?

Se no passado criámos ilusões e se assistimos ao seu desmoronamento, é sinal que o nosso coração deseja algo diferente para nós. Aproveitemos o impacto da desilusão. Aproveitemos o grande, imenso, profundo vazio que se nos apresenta no horizonte como um implacável oceano. É como o útero no qual uma nova vida poderá ser gerada e como as águas que a acolhem. E se escolhemos recuperar o nosso poder criador saberemos que é nas águas silenciosas que começa a criação. No mundo líquido dos sonhos e da memória.
Porque aí sonhamos um futuro comum neste universo comum. Aí sabemo-nos parte de um todo, aí o meu sonho de amor e de paz é o sonho de todos, é o sonho dos que já cá não estão e é o sonho dos que virão.
E é nesse mesmo lugar intemporal onde podemos encontrar a nossa singularidade e emergir com o conhecimento do lugar e do papel que nos toca no tecido comum. Aí no vazio, no inconsciente, no silêncio. O Oráculo fala-nos da importância de reconhecermos e expressarmos essa singularidade. De nos honrarmos, honrando os nossos dons e a nossa forma única de participar no futuro que desejamos. Ousando brilhar e partilhar a luz que existe em nós. Já não nos podemos dar ao luxo de privar o mundo dessa luz. Já não nos podemos permitir continuar a alimentar dúvidas e crenças de escassez e competitividade. Já não podemos continuar a alimentar o mundo de medo. É altura de escolher amor.

Escolher amor implica transmutar a visão de nós próprios como eternas crianças feridas e confiar na vida. Talvez não tenhamos experimentado nutrição e abundância no passado. Podemos ainda assim acreditar que podemos experimentá-las agora? Podemos pedir, desejar, afirmar que desejamos sentir-nos amados, nutridos e viver em plenitude? Podemos chorar as nossas mágoas e gritar as nossas raivas e depois avançar para um futuro no qual reivindicamos o nosso direito ao amor e à abundância?
Não desde a exigência da ferida, mas de uma amorosa compaixão. Não desde a pressa nem do forçar acontecimentos,mas da confiança nos processos. A confiança na nova vida, no novo ciclo, no novo amor.
A confiança no amor que se quer manifestar nas nossas vidas porque é o sonho comum, e o sonho comum tem muita força. Se permitirmos terá muito mais força do que qualquer necessidade de ilusões. Se permitirmos inspirará claridade nas nossas vidas. Porque é muito maior, é imenso, é expansão. E é de Verdade.

 

Oráculos

“Love”, Wisdom of Avalon
“Magdalene”, Magdalene Oracle
“Gaia’s Dragon”, Dragonfae Oracle
“Chumara”, Dragonfae Oracle
“ Dryster”, Dragonfae Oracle
“Dreamcatcher”, Dragonfae Oracle
“Oonagh”, Oracle de les Déesses
“The cow”, Wisdom of Avalon
“As de Michel”, Tarot des Archanges
“Roi de Raphael”, Oracle des Anges
“Culpa”, Tarot de Osho

 

Pintura “O nascimento de Vénus”, Botticelli

 

O Oráculo

Na Antiguidade consultar o Oráculo era um ato natural para buscar orientação. Porque para os antigos a relação com o mistério era algo natural – os seus deuses e deusas ajudavam-nos a dar sentido ao inexplicável e uma certa ordem ao caos próprio da existência humana.
A espiritualidade – a nossa relação com o que nos transcende – é nos dias de hoje algo cheio de associações duvidosas, de ambiguidades e de um ceticismo que mascara o nosso eterno medo face ao desconhecido. O resultado é uma profunda fome espiritual – somos uma sociedade desnutrida e desamparada, e a consequência são sintomas como a ansiedade e a adição.

Nos meus processos de investigação como arte terapeuta descobri nos Oráculos uma ferramenta de grande riqueza e potencial – a nível terapêutico, artístico, lúdico e espiritual – e criei o projeto Imaginário Oracular para trabalhar com o Oráculo a partir de métodos arte terapêuticos.

É um recurso que tenho vindo a explorar nos últimos anos e que tem sido fonte de nutrição e inspiração e, nesse sentido, proponho-me partilhá-lo de forma mais ampla, para além do espaço das minhas consultas e workshops.
Assim, mensalmente, partilharei um texto escrito a partir de uma mensagem do Oráculo para todos nós. Um texto resultante do processo criativo em que as imagens, os mitos, os símbolos de diferentes cartas se transformam em palavra escrita. Não para “adivinhar” nada mas para inspirar-nos a todos na criação dos nossos futuros.

É um projeto experimental, que se irá construindo de forma orgânica.
Um projeto para partilhar a inspiração do Oráculo e o seu potencial sanador e criativo.
Par ir reconciliando as ambiguidades, internas e externas, e as minhas próprias resistências acerca do que é um Oráculo.
E para continuar a experimentar e investigar as fronteiras do artístico, do mistério, do acaso, da intuição, da comunicação. Daquilo que é a consciência compartida onde todos estamos de alguma forma conectados, e em que as ações de um têm repercussões que nos afetam a todos.

O Oráculo, Criar o futuro do mundo

O Oráculo

Na Antiguidade consultar o Oráculo era um ato natural para buscar orientação. Porque para os antigos a relação com o mistério era algo natural – os seus deuses e deusas ajudavam-nos a dar sentido ao inexplicável e uma certa ordem ao caos próprio da existência humana.
A espiritualidade – a nossa relação com o que nos transcende – é nos dias de hoje algo cheio de associações duvidosas, de ambiguidades e de um ceticismo que mascara o nosso eterno medo face ao desconhecido. O resultado é uma profunda fome espiritual – somos uma sociedade desnutrida e desamparada, e a consequência são sintomas como a ansiedade e a adição.

Nos meus processos de investigação como arte terapeuta descobri nos Oráculos uma ferramenta de grande riqueza e potencial – a nível terapêutico, artístico, lúdico e espiritual – e criei o projeto Imaginário Oracular para trabalhar com o Oráculo a partir de métodos arte terapêuticos.

É um recurso que tenho vindo a explorar nos últimos anos e que tem sido fonte de nutrição e inspiração e, nesse sentido, proponho-me partilhá-lo de forma mais ampla, para além do espaço das minhas consultas e workshops.
Assim, mensalmente, partilharei um texto escrito a partir de uma mensagem do Oráculo para todos nós. Um texto resultante do processo criativo em que as imagens, os mitos, os símbolos de diferentes cartas se transformam em palavra escrita. Não para “adivinhar” nada mas para inspirar-nos a todos na criação dos nossos futuros.

É um projeto experimental, que se irá construindo de forma orgânica.
Um projeto para partilhar a inspiração do Oráculo e o seu potencial sanador e criativo.
Par ir reconciliando as ambiguidades, internas e externas, e as minhas próprias resistências acerca do que é um Oráculo.
E para continuar a experimentar e investigar as fronteiras do artístico, do mistério, do acaso, da intuição, da comunicação. Daquilo que é a consciência compartida onde todos estamos de alguma forma conectados, e em que as ações de um têm repercussões que nos afetam a todos.

 

Criar o futuro do mundo

O Oráculo diz-nos que começamos a despertar para os nossos dons e talentos e que é momento de nos perguntarmos – como podemos contribuir para o futuro deste mundo?
É tempo de manifestarmos, de expressarmos o nosso potencial e abraçarmos o nosso poder criativo – que sonhos, que visões alimentamos?
Temos uma chama cá dentro, é o poder de criar e fazer encarnar aquilo em que nos decidimos focar.
Podemos ver prosperidade? Ousamos sonhar? O desejo chama-nos, a sussurrar e a gritar aquilo que o coração quer. Podemos escutar? Podemos calar o ruído externo, das expectativas e convenções, e ouvir apenas a voz dos nossos corações?
Se é tempo de criar é tempo de confiar, saber que aquilo que mais desejamos também chama por nós. Saber que podemos ousar e pôr toda a nossa energia em manifestar – confiando na obra, no projeto, na saúde, na relação que quer nascer. Porque o processo não tem de ser uma luta, um constante ato de forçar e fazer acontecer. A vida já sabe. A vida sabe o caminho e a vida está por nós, oferecendo-nos imprevistos, erros, sincronias, falando na língua dos acasos e das coincidências. Só temos de escutar a sua voz, sintonizar a nossa vontade com a sua e os nossos tempos com os seus. E honrar o desejo de criar, confiando no processo e deixando-nos guiar.
Essa é a sabedoria. Porque não estamos sós e os nossos sonhos não existem isolados. Não estamos realmente separados, a criatividade de um é a criatividade de todos, e no final tudo converge.
É tempo de ampliar, de abranger, de expandir. Ver o todo e não perder a continuidade. Ver de longe e ver de dentro. Porque ao ir dentro encontramos a sabedoria e, ao afastar-nos o discernimento. Sejamos árvores, de raízes bem profundas e ramos abertos ao vento.
Para criar e realmente manifestar, precisamos encontrar esse momento, esse lugar, em que o nosso espírito e a nossa realidade são como dois amantes, saciados e cansados, que se começam a aceitar.

Somos feitos de dualidades, habitam-nos os amantes, vivem em nós todas as vidas que vivemos antes. Habitam-nos os nossos antepassados, nos sonhos e nos medos, nas esperanças que nos movem, nos dogmas que nos frenam.
Somos singulares mas somos tantos, e nenhuma parte desse todo se deve descuidar. Se a parte que sonha se desvia, se a que busca se congela, se a desconhecida está ausente… Há que recuperá-las e reuni-las, para que possamos estar inteiros neste momento presente.
Somos livres mas pertencemos, e para que os nossos dons se possam expressar, há que abrir e abraçar, tudo o que em nós pode criar.
E tal como por vezes há que largar para receber, para curar há que morrer. Em pequenas doses, como o antídoto feito do veneno. Há que saber, quando a ferida mais dói é quando começa a sanar. Podemos gritar, podemos espernear, podemos querer de volta o mal estar habitual, mas se realmente queremos avançar saberemos quando é momento de libertar.
O que nos ata à dor é o que nos ata ao nosso lugar, cómodo, previsível, onde nada pode passar. E o processo de curar e poder integrar todas as partes de nós é o caminho para nos apropriarmos de todo o nosso poder, de tudo aquilo que podemos ser.

Estão aí os talentos, escondidos nas feridas, desviados pelos medos, devorados pelos traumas.
O que podemos contribuir para o futuro deste mundo começa por escarafunchar bem fundo, limpar as feridas de onde os dons para criar poderão por fim sair e, livres, começar a circular.

 

 

Oráculos:

“My creative power”, Soulful Women Oracle

“Spirals of manifestation”, Sacred Rebels Oracle

“Divine Intervention”, Eyes of the Soul Oracle

“Ascension”, Magdalene Oracle

“Eye of Horus”, Isis Oracle

“See the signs”, Messengers Oracle

“Yin Yang Lover”, Journey of Love

“Quiron, healing”, Mythic Oracle

“Drangonfae of Rebirth”, Oracle of the Dragonfae

“Tenga confianza en sí mismo”, el Arcángel Miguel

“Sota de Oros”, Shadowscapes tarot

 

Pintura “Starry Night Over the Rhône”, Vincent Van Gogh

 

 

 

 

 

“Na selva vestida de mim”

A vida está cheia de portas, já sei, se encontro uma, há que atravessar.
O lugar onde me encontro, já não é o meu lugar. A porta convida-me a entrar, é a vida que me chama, que me incentiva avançar.
Do outro lado, o desconhecido. E o medo que me quer parar. Não faz mal, levo o medo, dou-lhe a mão, não deixo que me diga “não”. O medo que conheço é um alerta, um bálsamo que me mantém desperta.
Do outro lado sou estrangeira. E a luta por encaixar. Não faz mal, levo a estrangeira no coração. Não luto, não pertenço, só na alma, só à Terra, e encontro conexão.
Sem a luta vem a dor, mas não resisto, sinto tudo na palma da mão. Toco a Lua, encontro a memória e recebo a certeza da minha natureza. Recebo o meu lugar.
Abro as mãos, entrego a dor. Como se libertasse peixes nas águas do mar. Como a árvore larga as folhas para que o inverno possa chegar.
Largo, porque sei que tudo volta. Morro, porque há outra vida que quer começar. Atravesso a porta para a encontrar.

O desconhecido é um lugar selvagem, e na selva há que ser fera. Toda instinto e presença, despida de regras, de obediência.
Talvez aí onde sou estrangeira encontre a certeza, a essência da minha natureza.
Que ouça todos os silêncios, que venere todos os mistérios.
Que me banhem novas cores, que me encham de sabores. E que da minha pele nua na terra nasçam flores.
A beleza não é tua, é filha do Desejo. Confio, por fim. Celebro o êxtase de todas as mulheres em mim. Digo que sim e lanço a minha voz. Espero que chegue a ti.

Atravesso esta porta e, sem lugar, descubro onde tenho de estar.
Aqui, não há nada a perder, não há nada que me canse. Entrego, recebo, um desejo sem fim… toda a vida ao meu alcance.

 

Pintura “The dream”, Henri Rousseau

A prática artística

Este Verão volto a fazer “O caminho do Artista”.
Mergulho no primeiro capítulo e começo a olhar para as crenças que influenciam a forma como me relaciono com a criatividade – crenças que me foram transmitidas a nível cultural, social, familiar, etc. Ao chapinhar um bocado nas águas frias e turvas das crenças que dificultam a expansão criativa, encontro um desses peixes que podem picar e fazer muito mal – a crença de que “a prática artística não serve para nada.”
Deve ser uma dessas pérolas transmitidas de geração em geração pois vem-me imediatamente a imagem da artista criança que passava os dias a pintar e a desenhar.
Mas um dia a criança cresce e a artista vê-se confrontada com a questão “Que lugar deve ocupar a expressão artística na minha vida?
E é aqui que alguns artistas começamos a tentar que a nossa prática “sirva para alguma coisa”, ou seja , que tenha uma utilidade. Assim, aquilo que durante muito tempo fazíamos por curiosidade, brincadeira, prazer, começa a sofrer pressões.

Em “Big Magic”,o seu livro sobre o processo criativo, Elisabeth Gilbert fala sobre os perigos de os artistas exigirmos certos resultados à nossa criatividade, como esperar que seja o nosso sustento económico, ou fonte de reconhecimento. E como em qualquer relação, quando começam a surgir pressões e exigências, tudo deixa de fluir.

Estes dias serviu-me de inspiração ver a minha sobrinha de 5 anos em plena prática artística.
Encontrou as minhas cartas com imagens de sereias e, depois de observar cada uma das 56 imagens e selecionar as que mais gostava, disse que também sabia desenhar sereias. Ofereci-lhe papel e umas ceras que se podem utilizar com água.
Passou quase duas horas deitada no chão a pintar a sua sereia e todos os animais aquáticos que a acompanham – experimentando todas as cores, explorando diferentes maneiras de passar a cor para o papel (consciente que estava a provar e que há muitas maneiras de pintar com uma cera), e jogando com os efeitos da água enquanto falava sem parar.

O mito da sereia é uma boa metáfora para a vida criativa. O mundo exterior desperta curiosidade e queremos ser parte dele. A questão é poder encontrar uma maneira de “ir lá para fora” e participar sem sentir que temos de abdicar da nossa voz. Sem comprometer a nossa capacidade de expressão essencial. Como diz Monique Grande em “Feminitud”, “ Já não temos de perder a nossa voz para usar as nossas pernas.”
A crença de que “a prática artística não serve para nada” é no fundo a mensagem de que para ter direito a um lugar no mundo temos de ser produtivos, ou seja,  não sair do rebanho e cumprir com as obrigações que se esperam de nós.
Uma prática artística não só nos mantém em conexão com a nossa singularidade senão que a alimenta. A arte é transgressiva. Por isso mais vale levarem-nos a acreditar que não serve para nada. Porque a partir do momento em que os artistas começarmos a dar o devido valor à prática em si e a nutrir a nossa singularidade – sem esperar o reconhecimento, aceitação ou permissão do mundo – seremos catalisadores de transformações, tal como o foram todos os artistas que nadaram nas águas da sua criatividade sem permitir que as crenças os assustassem ou dissuadissem desses profundos mergulhos.

 

Criar o futuro

No outro dia a passear por Gràcia deparei-me com esta conhecida frase de Abraham Lincoln:
“The best way to predict your future is to create it.”

Quis o acaso que uns dias depois, na mesma rua onde lera a frase, encontrasse um artista a trabalhar na imagem da foto.

Como arte terapeuta um dos recursos que mais utilizo é a Metáfora, que trabalho através dos Oráculos e do jogo do acaso. O acaso serve como ponte para o inconsciente, tal como a expressão artística – não se trata de magia nem de predição, mas de conectar com o inconsciente porque sem entrar nesses lugares desconhecidos não pode haver criação autentica.

Trabalhar através da arte – com metáforas, com imagens, com símbolos e personagens – é como entrar num atelier, cheio de materiais à disposição e grandes folhas em branco, para criar o meu próprio futuro.

E a possibilidade de criar o futuro que desejo viver, mesmo com todas as resistências que possam surgir, é a única forma de não ser vítima das circunstâncias. No fundo, é uma questão de escolha.

“Um pouco de morte cada dia”

“Seremos feitos de tal massa que precisaremos tomar diariamente pequenas doses de morte, sob pena de não conseguirmos cumprir a missão de viver?”

Encontro esta questão em “Orlando”, de Virgina Woolf, e lembro-me de um sonho que tive há uns anos em que alguém me dizia a estranha frase “Toma um pouco de morte cada dia”.
Agora entendo, ou volto a entender.
Há trabalhos que temos de deixar, há relações que têm de acabar, há pontos de apoio que se tornaram cargas e que é preciso soltar.
Quando nos agarramos demasiado ao que já não é vital começamos a morrer em vida, a nossa existência intoxica-se.
As “pequenas doses de morte” é aquilo que nos mantém vivos na vida, é o que nos permite “cumprir a missão de viver”.

A mulher e a criação

Como mulher, interessa-me a arte como forma de transgressão.
Virginia Woof (e não me canso de a citar!), no seu ensaio para as mulheres que desejam criar, fala de uma possível irmã de Shakespeare como símbolo de todas as mulheres artistas que não logram desenvolver a sua obra:

“(…) esta poetisa, que nunca escreveu uma palavra e foi sepultada numa encruzilhada, ainda está viva. Vive em vós e em mim e em muitas mulheres que não estão aqui esta noite, pois estão a lavar a louça e a deitar os filhos.”

Sejamos escritoras, poetas, pintoras, artistas ou não, o ato de criar é uma necessidade universal e a auto expressão é uma função vital. É um lugar de encontro comigo própria. Um lugar onde me posso manter fiel a mim e onde traio saudavelmente os padrões morais, familiares ou sociais que me condicionam – um lugar vital de pequenas grandes transgressões.

O espírito do artista

Para todos os que desejamos criar.
Para todos os que somos artistas – poetas, escritores, músicos, performers – e ainda duvidamos se é válido auto intitular-nos assim.
Para todos os que somos artistas e não conseguimos criar a nossa obra.

Ando há 20 anos ás voltas com muitas e muitas questões relacionadas com a expressão artística e com a minha própria relação com a artista que sou.
Independentemente da obra que podemos ou não ter concretizado, ser artista é uma forma de perceber a vida. É sobretudo uma questão de sensibilidade.
O artista vive e convive com o Desejo e a Necessidade de criar, de expressar, de devolver ao mundo a sensibilidade com que o habita e o percebe.
No entanto, para encarnar, para ser plenamente o artista que há em si, a sensibilidade e essa forma de perceber o mundo têm de adquirir um corpo. E para isso há que criar, há que expressar e manifestar numa obra concreta, encarnada – a obra que há em cada artista, a obra que é a semente da sua sensibilidade e da inspiração, tem de passar da idealização ao real. Tem de atravessar o mundo das ideias e descer ao plano físico.
Esse processo é o processo criativo.

O processo criativo é a travessia da expressão pelos canais internos do artista até se manifestar na obra.
Como artistas temos de proporcionar esses canais. No entanto, os nossos canais nem sempre estão limpos, desobstruídos e livres. E então, das duas uma – ou a expressão sairá contaminada por todo a porcaria que arrastará consigo, ou não sairá de todo.
O que causa a contaminação e a obstrução nos canais de expressão de cada artista, o que não permite que as ideias os atravessem de forma livre e fluída, são todas as crenças, hábitos e emoções tóxicas como a vergonha, o medo, o ressentimento. E quanto mais calcificadas estiverem essas emoções e crenças, mais grave o bloqueio.
O que acontece é que se a expressão não flui e não se exterioriza, transforma-se em veneno. Um veneno que não só transparece na obra como, em última instância, contaminará a vida do artista.

No seu livro “Catching the Big Fish”, David Lynch chama a atenção para esta questão “A depressão, a raiva, a tristeza são belas numa história, mas são veneno para o artista. (…)
Quando cria não pensa nas consequências. Se pensa como o seu trabalho poderá ser recebido pelos demais, não será artista.

E Virginia Woolf, em “Um quarto só para si”, refletindo sobre o estado de espírito mais propício ao ato da criação, escreve o seguinte:

“Infelizmente, são precisamente os homens e mulheres de génio que mais se importam com o que se diz a seu respeito. (…) E esta suscetibilidade é duplamente lamentável, pensei, voltando de novo à minha interrogação inicial sobre o estado de espírito mais propício para o trabalho criativo, porque o espírito de um artista, para completa e totalmente libertar a obra que está dentro de si, deve exaltar-se, como o espírito de Shakespeare (…) Não deve haver qualquer obstáculo, nada deve ficar por esgotar…
(…)
Todo o desejo de protestar, de gritar, de proclamar uma injúria, de um ajuste de contas, de transformar-nos numa testemunha de uma dificuldade ou ofensa, tudo isso foi por ele posto de parte e destruído. Portanto a sua poesia flui livre e sem entraves.

Qual seria o segredo de Shakespeare? Como limpar e desobstruir os nossos canais de expressão? Como libertar-nos das crenças de desmérito, do medo de falhar, do medo da rejeição, da raiva e da indignação? Como soprar tudo isso para fora de nós e estar simplesmente e autenticamente presentes para que a expressão nos posso atravessar?

Liberdade

Buscamos uma nova maneira de fazer.
Como vincular-nos, como criar, como trabalhar sem comprometermos aquilo que somos? Como estar no mundo,com os pés assentes na terra, honrando a Liberdade?

Há que explorar outras maneiras para além das que temos conhecido até agora.
Quem sabe, explorar outras facetas de nós. Quem sabe conectar-nos mais com o nosso instinto e intuição. Com o mistério e um sentindo de possibilidade.
E quem sabe pôr mais fé nos processos e não esperar tudo de um resultado final. Não ter medo de experimentar. Saber que os nossos projetos, as nossas criações, a nossa vida, têm os seus próprios ciclos e que é inteligente fluir com eles. Aprender a discernir quando recorrer à intuição e quando o momento pede esforço e ações concretas. Quando abrir-nos à inspiração e quando tomar as rédeas do nosso cavalo e enfrentar as batalhas.
Mas principalmente, e antes de mais, saber onde queremos apontar a nossa flecha. Focar, decidir, priorizar. Formular as nossas perguntas. Porque o primeiro passo é poder ver, sentir, perceber o que é que realmente desejamos.
E saber que a Liberdade é ousarmos assumir a autoria das nossas próprias criações, tendo presente que por vezes há que desfazer, rasgar, romper e simplesmente começar de novo.

 

Foi uma sessão preciosa de Imaginário Oracular. Agradeço a implicação de todas as que estiveram presentes, com os seus propósitos, as suas questões, os seus desejos de criar.
Partilho a minha ressonância através desta pintura, inspirada pela perceção do universal que atravessa o propósito particular de cada uma.

 

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