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Autonomia II

A questão é, poder ocupar um lugar no mundo, no exterior, e ser visível, e participar, e implicar-se, sem comprometer aquilo que se é.
Sem se perder nas regras, explícitas e implícitas do entorno, sem desaparecer na vontade e expectativa externas, sem se “vender”, sem tentar encaixar.

Ser autónoma e “viver na presença da realidade, uma vida tonificante, de uma maneira visível” é para a mulher poder ocupar o seu lugar e ser soberana da própria vida.
E, no entanto, é possível a mulher manter-se fiel aos seus valores e, ainda assim, gerar o próprio dinheiro e construir uma verdadeira Autonomia?

Talvez muitas de nós estejamos a fazer um “shift” interno, um reposicionamento de atitude face a certas crenças, sejam elas próprias, herdadas, ou implementadas pela família/ cultura/ sociedade.
Talvez estejamos a questionar essas crenças e a maneira como se aplicam às nossas vidas.
E é necessário esse questionamento. Se queremos trabalhar, com “Prazer” e “Inocência” – movidas pelo que nos interessa, pelo que alimenta a nossa curiosidade, naquilo em podemos pôr os nossos dons em circulação. Sem negociar, sem prostituir, esses dons, recursos, conhecimentos.
E sem ter de escolher entre fazer algo em que se acredita ou ser bem sucedido financeiramente, socialmente.

Ocorre-me o discurso de Madonna. Porque há uma certa atitude desafiante, ou mesmo guerreira, nisto tudo. A atitude de acreditar firmemente numa mesma e no próprio valor, sem deixar de ter presente a vulnerabilidade. “In life there is no real security except self-belief”.

 

Há quase um ano atrás, fiz uma sessão com os Oráculos orientada para os propósitos de Ano Novo na Holanda, e éramos quatro mulheres. O propósito ou intenção das quatro era o mesmo – poder conciliar os diferentes aspetos que assumimos como mulheres, e tentar encontrar um equilíbrio na dedicação a cada um.
Porque queremos Autonomia, mas sem sacrificar a Criatividade, nem a Maternidade, nem o Amor. E parece uma dessas tarefas impossíveis incumbidas pelos deuses!
Neste momento precisamos acreditar que não é impossível ou utópico. Que, de alguma forma, poderemos reunir a mulher autónoma, com a mulher mãe, com a criativa, com a esposa, com a amante, numa espécie de irmandade interna. Cada uma acompanhando, inspirando e potenciando as outras, para que a soma do potencial de cada uma seja a concretização de todas. Sem as rivalidades que as mulheres cultivamos umas com as outras, como se não houvesse no mundo realização, sucesso, amor, abundância para todas, projetando na nossa “próxima” a sombra que não podemos encarar em nós mesmas.

 

Tal como diz Madonna “If you are a girl you have to play the game (…) be what woman feel confortable with you being around other man”.
E tal como diz Virginia Woolf “As mulheres sao duras para com as mulheres.”
Somos duras umas com as outras porque somos duras connosco próprias.
Mas quando começarmos a honrar cada parte de nós mesmas, quando começarmos a olhar com ternura os nossos limites e vulnerabilidades, quando começarmos a encarar com compaixão as nossas sombras refletidas nas outras mulheres, quando começarmos a ousar acreditar no nosso valor… Aí é quando podemos começar a mudar “o jogo”.

E quando “o jogo” mudar, a Autonomia não terá de ser, para a mulher, uma luta. Porque não teremos de deixar de ser mulheres, mães, amantes, artistas, para ser autónomas.

 

Pintura “Sogni”, Vittorio Corcos

 

 

Autonomia

“Quando vos peço para ganhardes dinheiro e terdes um quarto vosso, estou a pedir-vos que vivais na presença da realidade, uma vida tonificante, de uma maneira visível, quer participeis ou não.” Virginia Woolf

 

Porque a Autonomia, e não posso deixar de falar sob o ponto de vista de mulher, é gerar o próprio dinheiro, ter um espaço de encontro com uma mesma, e assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas. Viver na “presença da realidade”.

Há dois anos, escrevia na minha tese – baseada no trabalho com mulheres imigrantes através da Arte Terapia – o seguinte texto sobre a Autonomia e a sua relação com a maternidade:
“ Enquanto a maternidade não me forçou a assumir essa condição de dependência e vulnerabilidade vivia num estado ilusório de mulher autónoma. E ao olhar para estas mulheres essa ilusão fica despedaçada.
Onde fica assim o desejo comum a todas de nos enraizarmos, de encontrarmos um lugar nesta terra? Porque esse desejo de estar no mundo parece incompatível com a aniquilação de ter necessidades, incompatível com a obediência. E como render-nos à consciência de uma dependência e vulnerabilidades tão exacerbadas pela maternidade e, ainda assim, construirmos uma autonomia real?”

 

Esta semana jogo com as imagens, para celebrar novos passos no caminho da Autonomia. As imagens para sair do discurso reflexivo e entrar no campo do poético.
Assim, a partir desse jogo, este texto:

“Reconheço este caminho e em cada imagem um passo caminhado.
Reconheço a Criança, diante de um portão cerrado, e do outro lado, o que não está ao seu alcance.
Reconheço a Sabotadora, que canta a lengalenga como um disco avariado, “isso que desejas, não é para ti.”
E ao mesmo tempo a Anciã, que vê mais, que vê para além das feridas que limitam e condicionam.
Reconheço a Obediência, a que procura agradar a todos, e corresponder ás expectativas, reais ou imaginadas.
E reconheço a Dor de quem se dá conta, de mãos dadas com o alívio de receber claridade no que antes era indistinto.

Claro que tem de haver uma Iniciação! Só não estamos habituados a elas. Uma Iniciação para passar da independência ilusória a uma verdadeira Autonomia.
Porque nalgum momento vou ter de me ver, reconhecer, tornar-me íntima de mim mesma. Saber os contornos dos meus limites e saber onde há janelas abertas ao mundo para experimentar a expansão.
Saber, talvez, que em mim também há energia masculina. E saber que há desejo de prazer e alegria.
Porque se Autonomia é independência e liberdade, que melhor guia para me orientar neste caminho que a escolha de ser íntegra, sabendo que “Inocência” e “Prazer” caminham lado a lado?”

 

 

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