O Oráculo – Integridade e Rebeldia

O mundo vai sempre tentar domar-nos, civilizar-nos e moldar-nos. “O que é que se espera de nós? O que é que a nossa família, a nossa cultura, a nossa sociedade espera de nós?” Será que vivemos toda uma vida com essa questão como guia inconsciente das nossas ações e decisões?
Somos rebeldes, mas continuamos a obedecer. Denunciamos, criticamos, contestamos. Mas continuamos a pactuar com as mesmas coisas contra as quais nos afirmamos. Porque a verdadeira rebeldia não é afirmar-nos contra. Contra seja o que for que nos cause a mais profunda indignação e resistência. A verdadeira rebeldia é afirmar-nos a favor: dos nossos valores, dos nossos sentimentos, das nossas necessidades autênticas, do nosso Desejo de alma.
Mas isso requer coragem. Primeiro requer a coragem de abdicar da necessidade de aprovação externa. Requer a coragem de não precisarmos agradar aos demais. Requer a coragem de dizer “Não” àquilo que nos lastima, deprime, enferma. E, principalmente, requer a coragem de deixarmos de nos guiar pelas tendências externas – e demandas, e pressões, e exigências…
Ou seja, requer a coragem de não conferir o nosso poder ao mundo, mas a nós próprios. E esse é um ato de coragem brutal, porque se somos nós que temos o poder, somos nós que temos a responsabilidade.
A verdadeira rebeldia não é rebeldia senão integridade. Quando estamos em posse do nosso poder e assumimos a responsabilidade pelas nossas vidas começam a desfazer-se as querelas contra a autoridade, porque já não precisamos projetar autoridade em figuras externas. Já não precisamos viver em constante luta e podemos dar a reforma ao nosso querido rebelde interno, a que tanto nos afeiçoámos.

O Oráculo diz-nos que há momentos em que reunir essa coragem e afirmar-nos a nós próprios é uma questão de vida ou morte: quando há uma ou várias situações nas nossas vidas que nos envenenam, quando a energia ao nosso redor é tão tóxica que estamos doentes, deprimidos, anestesiados, exaustos, violentos.
Para não morrer em vida, alguma morte tem de acontecer. O que é que temos de soltar? A que falsas seguranças há que renunciar? De que confortos temos de abdicar? Que empregos, projetos, relações precisamos largar?
Ou talvez o grande ato de coragem seja o nosso próprio recolhimento. Um recolhimento temporal, cíclico. Permitir-nos retirar do rebuliço constante do mundo externo é a única forma de nos reencontrarmos com nós mesmos. Afastar-nos do ruído é a única forma de acedermos ao nosso silêncio interno e é nesse silencio que encontraremos os nossos valores, os nossos desejos, o nosso caminho. É no silêncio desse recolhimento que nos poderemos conhecer e reforçar laços de confiança com a nossa intuição e os nossos instintos.
Mas esse recolhimento não é um isolamento. É uma decisão consciente de ter momentos de disponibilidade para as demandas externas, e ter igualmente momentos de disponibilidade apenas para nós. E o que é que nos permite conectar connosco? O que é que nos nutre e nos inspira? O que é que nos recarga energia e nos regenera? Talvez meditar, escrever, pintar, dançar, rezar, ouvir música, fazer desporto… O que seja que nos ajude a criar pontes para essa parte de nós que o mundo nunca poderá civilizar. Porque, se buscamos afirmar-nos neste mundo, e se já chega de falsa rebeldia, é altura de recuperar esse outro “eu” interno que permanece puro e selvagem. Que não se rebela contra nada porque não se sente ameaçado por nada, porque permanece íntegro.
Esse outro “eu” a resgatar, é a parte de nós próprios com que poderemos realmente estar no mundo. É a nossa pureza, a nossa individualidade essencial.
Conectados com ela poderemos ocupar um lugar na sociedade sem descuidar a vida interior. Poderemos relacionar-nos com abertura sem que os demais nos devorem. Poderemos entregar-nos ao mundo sem nos perderemos de nós mesmos.

 

O Oráculo

Na Antiguidade consultar o Oráculo era um ato natural para buscar orientação. Porque para os antigos a relação com o mistério era algo natural – os seus deuses e deusas ajudavam-nos a dar sentido ao inexplicável e uma certa ordem ao caos próprio da existência humana.
A espiritualidade – a nossa relação com o que nos transcende – é nos dias de hoje algo cheio de associações duvidosas, de ambiguidades e de um ceticismo que mascara o nosso eterno medo face ao desconhecido. O resultado é uma profunda fome espiritual – somos uma sociedade desnutrida e desamparada, e a consequência são sintomas como a ansiedade e a adição.
Nos meus processos de experimentação como arte terapeuta descobri no Oráculo uma ferramenta de grande riqueza e potencial – a nível terapêutico, artístico, lúdico e espiritual – e criei este projeto  para trabalhar com o Oráculo a partir de métodos arte terapêuticos.
É um recurso que tenho vindo a explorar nos últimos anos e que tem sido fonte de nutrição e inspiração e, nesse sentido, proponho-me partilhá-lo de forma mais ampla, para além do espaço das minhas consultas e workshops.
Assim, mensalmente, partilho um texto escrito a partir de uma mensagem do Oráculo para todos nós. Um texto resultante do processo criativo em que as imagens, os mitos, os símbolos de diferentes cartas se transformam em palavra escrita. Não para “adivinhar”  mas para inspirar-nos a todos na criação dos nossos futuros.
É um projeto experimental, que se vai construindo de forma orgânica.
Um projeto para partilhar a inspiração do Oráculo e o seu potencial sanador e criativo.
Par ir reconciliando as ambiguidades, internas e externas, e as minhas próprias resistências acerca do que é um Oráculo.
E para continuar a experimentar e investigar as fronteiras do artístico, do mistério, do acaso, da intuição, da comunicação. Daquilo que é a consciência compartida onde todos estamos de alguma forma conectados, e em que as ações de um têm repercussões que nos afetam a todos.

 

Pintura da artista Clare Elsaesser

 

Oráculos

Abandone esa situación malsana, Archangel Michael, Doreen Virtue
She feels she knows, Sacred Rebels Oracle, Alana Fairchild
The cloak, Journey of love, Alana Fairchild
Artemis, Mythic Oracle, Carissa Mellado
Outdoors, Archangel Oracle, Doreen Virtue
El perrito de las praderas, Las cartas de la medicina, JamieSams y David Carson
La mariposa, Las cartas de la medicina, JamieSams y David Carson

If

“If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;
If you can think—and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And—which is more—you’ll be a Man, my son!”

 

Rudyard Kipling