fbpx

O Oráculo, Habitar profundidades

Sonhar é a nossa capacidade de nos aventurarmos nos desejos inquietos do nosso coração. É entrar no mundo da imaginação sem medo de nos perdermos, navegar ondas de possibilidades e atravessar com coragem toda essa intensidade.
Sonhar não tem a consistência nem o peso da vontade. Não tem a lógica nem o sentido prático dos objetivos. Não tem a definição clara nem o foco dos propósitos. Sonhar é um lugar onde tudo é possível, com as cores do desejo, o brilho da magia e o calor da paixão.
É um lugar para vidas secretas, para nos experimentarmos diferentes, para expandirmos a ideia que temos de nós mesmos.

O Oráculo convida-nos a sonhar. Os sonhos são a semente da criação, o ingrediente mágico para que as nossas vidas voltem a ter sabor, o conjuro para quebrar o desencanto.
Há momentos em que não temos de fazer nada, em que o melhor é ficarmos quietos e observar. É nessa quietude e sossego que surgirá o espaço para podermos sonhar.
O Oráculo diz-nos que é altura de recuperar o encanto. É momento de pararmos de nos esforçar tanto para manter as nossas vidas no eixo. Pararmos de nos esforçar tanto para manter a mesma ordem, os mesmos contornos, as mesmas dinâmicas. Tentamos condicionar as nossas possibilidades. Tentamos restringir as nossas vias. Tentamos controlar todos os resultados. Tentamos resistir à mudança. Tentamos até à exaustão.
Precisamos realmente sucumbir, sem uma gota de energia, nessa tentativa vã de reter o fluxo da vida? Precisamos realmente ser derrubados para nos rendermos à força da Criação?
Resistimos porque a Criação implica a mudança de formas que tentamos evitar a todo o custo. É o desconhecido que nos assusta, a incerteza que nos inquieta. E continuamos a achar que podemos tudo e que tudo passa pela força da nossa vontade e pelo esforço do nosso controle. Não passa. Não podemos tudo.
Mas podemos sonhar. Podemos submergir-nos nessas mesmas profundidades onde se gesta a mudança, onde se gesta as novas formas que desejam manifestar-se, onde se gesta nova vida. Aí os nossos sonhos estarão em sintonia com o grande sonho que a vida tem para nós.
Estamos demasiado acostumados a habitar apenas o mundo da superfície. Passamos o nosso tempo a chapinhar em águas rasas e assusta-nos a escuridão das águas profundas. Até que nalgum momento levamos um empurrão. Até que a vida decide pôr-nos à frente os monstros mais horríveis, asquerosos, irritantes para que nos atrevamos a mergulhar. Para que possamos entrar nesse lugar onde eles habitam e reconhecer as suas formas reais. Para que possamos reconhecê-los como os nossos lugares por explorar.

Somos muito mais do que podemos conceber, temos raízes, longas, vastas, imensas para que a Terra nos possa acolher. Se passamos toda uma vida à superfície… quanto ficará por conhecer… Se passamos toda uma vida a tentar manter tudo igual… quanto ficará por viver…
A profundidade é um lugar a conquistar. Um lugar que precisamos atravessar para emergir renovados, mais inteiros, mais completos, com a capacidade de brilhar.
O Oráculo convida-nos a entrar. Entrar na aventura, entrar na travessia, entrar na magia de todas as transformações. Entrar nesse lugar onde podemos observar, intuir e sonhar. Entrar no ventre da vida que quer mais vida, que gesta as novas formas e encontra os nossos sonhos para os manifestar.

 

 

Texto inspirado pelos seguintes Oráculos:
Amaterasu, el Oráculo de la Diosa, Amy Sophia Marashinsky
Blood Angel, Rumi Oracle, Alana Fairchild
Temple of black obsidian, Isis Oracle, Alana Fairchild
Dream a little, Journey of love, Alana Fairchild
Serendipity, Magdalene Oracle, Toni Carmine Salerno
Su intuición es pura, Archangel Michael, Doreen Virtue
Cernunnos, Gods and Titans, Stacey deMarco

 

O Oráculo
Na Antiguidade consultar o Oráculo era um ato natural para buscar orientação. Porque para os antigos a relação com o mistério era algo natural – os seus deuses e deusas ajudavam-nos a dar sentido ao inexplicável e uma certa ordem ao caos próprio da existência humana.
A espiritualidade – a nossa relação com o que nos transcende – é nos dias de hoje algo cheio de associações duvidosas, de ambiguidades e de um ceticismo que mascara o nosso eterno medo face ao desconhecido. O resultado é uma profunda fome espiritual – somos uma sociedade desnutrida e desamparada, e a consequência são sintomas como a ansiedade e a adição.
Nos meus processos de experimentação como arte terapeuta descobri no Oráculo uma ferramenta de grande riqueza e potencial – a nível terapêutico, artístico, lúdico e espiritual – e criei este projeto  para trabalhar com o Oráculo a partir de métodos arte terapêuticos.
É um recurso que tenho vindo a explorar nos últimos anos e que tem sido fonte de nutrição e inspiração e, nesse sentido, proponho-me partilhá-lo de forma mais ampla, para além do espaço das minhas consultas e workshops.
Assim, mensalmente, partilho um texto escrito a partir de uma mensagem do Oráculo para todos nós. Um texto resultante do processo criativo em que as imagens, os mitos, os símbolos de diferentes cartas se transformam em palavra escrita. Não para “adivinhar”  mas para inspirar-nos a todos na criação dos nossos futuros.
É um projeto experimental, que se vai construindo de forma orgânica.
Um projeto para partilhar a inspiração do Oráculo e o seu potencial sanador e criativo.
Par ir reconciliando as ambiguidades, internas e externas, e as minhas próprias resistências acerca do que é um Oráculo.
E para continuar a experimentar e investigar as fronteiras do artístico, do mistério, do acaso, da intuição, da comunicação. Daquilo que é a consciência compartida onde todos estamos de alguma forma conectados, e em que as ações de um têm repercussões que nos afetam a todos.

 

Pintura “Blue Circus”, de Marc Chagall

“Na selva vestida de mim”

A vida está cheia de portas, já sei, se encontro uma, há que atravessar.
O lugar onde me encontro, já não é o meu lugar. A porta convida-me a entrar, é a vida que me chama, que me incentiva avançar.
Do outro lado, o desconhecido. E o medo que me quer parar. Não faz mal, levo o medo, dou-lhe a mão, não deixo que me diga “não”. O medo que conheço é um alerta, um bálsamo que me mantém desperta.
Do outro lado sou estrangeira. E a luta por encaixar. Não faz mal, levo a estrangeira no coração. Não luto, não pertenço, só na alma, só à Terra, e encontro conexão.
Sem a luta vem a dor, mas não resisto, sinto tudo na palma da mão. Toco a Lua, encontro a memória e recebo a certeza da minha natureza. Recebo o meu lugar.
Abro as mãos, entrego a dor. Como se libertasse peixes nas águas do mar. Como a árvore larga as folhas para que o inverno possa chegar.
Largo, porque sei que tudo volta. Morro, porque há outra vida que quer começar. Atravesso a porta para a encontrar.

O desconhecido é um lugar selvagem, e na selva há que ser fera. Toda instinto e presença, despida de regras, de obediência.
Talvez aí onde sou estrangeira encontre a certeza, a essência da minha natureza.
Que ouça todos os silêncios, que venere todos os mistérios.
Que me banhem novas cores, que me encham de sabores. E que da minha pele nua na terra nasçam flores.
A beleza não é tua, é filha do Desejo. Confio, por fim. Celebro o êxtase de todas as mulheres em mim. Digo que sim e lanço a minha voz. Espero que chegue a ti.

Atravesso esta porta e, sem lugar, descubro onde tenho de estar.
Aqui, não há nada a perder, não há nada que me canse. Entrego, recebo, um desejo sem fim… toda a vida ao meu alcance.

 

Pintura “The dream”, Henri Rousseau

Esta web utiliza cookies. Puedes ver más información sobre esto en el enlace. Si continuas navegando, estás aceptándolas.    Ver
Privacidad