fbpx

A prática artística

Este Verão volto a fazer “O caminho do Artista”.
Mergulho no primeiro capítulo e começo a olhar para as crenças que influenciam a forma como me relaciono com a criatividade – crenças que me foram transmitidas a nível cultural, social, familiar, etc. Ao chapinhar um bocado nas águas frias e turvas das crenças que dificultam a expansão criativa, encontro um desses peixes que podem picar e fazer muito mal – a crença de que “a prática artística não serve para nada.”
Deve ser uma dessas pérolas transmitidas de geração em geração pois vem-me imediatamente a imagem da artista criança que passava os dias a pintar e a desenhar.
Mas um dia a criança cresce e a artista vê-se confrontada com a questão “Que lugar deve ocupar a expressão artística na minha vida?
E é aqui que alguns artistas começamos a tentar que a nossa prática “sirva para alguma coisa”, ou seja , que tenha uma utilidade. Assim, aquilo que durante muito tempo fazíamos por curiosidade, brincadeira, prazer, começa a sofrer pressões.

Em “Big Magic”,o seu livro sobre o processo criativo, Elisabeth Gilbert fala sobre os perigos de os artistas exigirmos certos resultados à nossa criatividade, como esperar que seja o nosso sustento económico, ou fonte de reconhecimento. E como em qualquer relação, quando começam a surgir pressões e exigências, tudo deixa de fluir.

Estes dias serviu-me de inspiração ver a minha sobrinha de 5 anos em plena prática artística.
Encontrou as minhas cartas com imagens de sereias e, depois de observar cada uma das 56 imagens e selecionar as que mais gostava, disse que também sabia desenhar sereias. Ofereci-lhe papel e umas ceras que se podem utilizar com água.
Passou quase duas horas deitada no chão a pintar a sua sereia e todos os animais aquáticos que a acompanham – experimentando todas as cores, explorando diferentes maneiras de passar a cor para o papel (consciente que estava a provar e que há muitas maneiras de pintar com uma cera), e jogando com os efeitos da água enquanto falava sem parar.

O mito da sereia é uma boa metáfora para a vida criativa. O mundo exterior desperta curiosidade e queremos ser parte dele. A questão é poder encontrar uma maneira de “ir lá para fora” e participar sem sentir que temos de abdicar da nossa voz. Sem comprometer a nossa capacidade de expressão essencial. Como diz Monique Grande em “Feminitud”, “ Já não temos de perder a nossa voz para usar as nossas pernas.”
A crença de que “a prática artística não serve para nada” é no fundo a mensagem de que para ter direito a um lugar no mundo temos de ser produtivos, ou seja,  não sair do rebanho e cumprir com as obrigações que se esperam de nós.
Uma prática artística não só nos mantém em conexão com a nossa singularidade senão que a alimenta. A arte é transgressiva. Por isso mais vale levarem-nos a acreditar que não serve para nada. Porque a partir do momento em que os artistas começarmos a dar o devido valor à prática em si e a nutrir a nossa singularidade – sem esperar o reconhecimento, aceitação ou permissão do mundo – seremos catalisadores de transformações, tal como o foram todos os artistas que nadaram nas águas da sua criatividade sem permitir que as crenças os assustassem ou dissuadissem desses profundos mergulhos.

 

Esta web utiliza cookies. Puedes ver más información sobre esto en el enlace. Si continuas navegando, estás aceptándolas.    Ver
Privacidad